10/07/2026 18:04 - Economia
A indústria petrolífera argentina atravessa um momento de profunda transformação, marcado por um recorde de investimento que se destina quase na sua totalidade à formação não convencional.
Para entender este cenário, é importante saber que a Vaca Muerta é uma gigante reserva de xisto (shale) localizada na Patagônia argentina, especificamente na província de Neuquén. O shale oil é o petróleo extraído de rochas de lutita, exigindo tecnologia avançada como o fraturamento hidráulico. O mapa de produção petrolífera na Argentina exibe uma profunda assimetria que se consolida mês a mês. Enquanto o shale oil de Vaca Muerta decola com cifras históricas, os jazimentos tradicionais ou convencionais atravessam um declínio que responde a fatores geológicos, mas fundamentalmente a uma forte migração de capitais para projetos de maior escala.
Segundo dados correspondentes a maio de 2026, o shale oil da Bacia Neuquina alcançou um pico histórico de 622,7 Kbbl/dia (milhares de barris por dia). Isso representa um crescimento gigantesco de 39,0% interanual e de 70,1% em comparação com maio de 2024.
Para 2026, o orçamento das companhias operadoras prevê um desembolso global recorde de US$ 13.890 milhões no setor petrolífero. Desse total, US$ 12.373 milhões (mais de 91%) serão destinados de forma exclusiva ao desenvolvimento de Vaca Muerta, alavancando um superávit comercial projetado acima de US$ 10.700 milhões.
Em contraste, o segmento convencional despenca em todas as bacias do país. A queda não discrimina regiões:
Um relatório da Lumina Energy Solutions indica que em Vaca Muerta 'a rocha decide quem ganha, não o preço do Brent'. O modelo mostra como o custo por barril (breakeven - ponto de equilíbrio) cai à medida que cresce a escala do projeto. O gasto em infraestrutura (dutos, plantas de tratamento) é fixo, portanto perfurar mais poços dilui esse custo.
| Escala de Poços | Investimento Total (USD) | Breakeven (USD por barril) |
|---|---|---|
| 45 poços (1 equipe, 3 anos) | 950 milhões | 57 USD |
| 90 poços (2 equipes) | Aprox. 1.900 milhões | 53 USD |
| 135 poços (3 equipes) | Aprox. 2.850 milhões | 51 USD |
| 225 poços (Plataforma) | 3.700 milhões | 50 USD |
Com o preço do Brent atualmente entre 65 e 72 dólares, toda a escada de rentabilidade funciona. Além disso, o RIGI (Regime de Incentivo para Grandes Investimentos) é a peça-chave que torna a aposta 'bancável'. O RIGI é um regime tributário especial recentemente aprovado na Argentina que reduz o imposto de renda de 35% para 25%, elimina direitos de exportação, não cobra tarifas nem IVA sobre bens de capital importados e fixa as regras do jogo por 30 anos. Isso economiza entre 3 e 4 dólares por barril no breakeven.
Empresas como YPF, Pluspetrol, Chevron e GeoPark já têm projetos na fila do RIGI. A GeoPark, por exemplo, investirá cerca de 1.000 milhões de dólares em três anos para elevar um bloco de 1.500 para 20.000 barris diários.
A infraestrutura está no limite após as obras de ampliação do oleoduto Oldelval. Todos os olhares se voltam para o Vaca Muerta Oil Sur (VMOS), a megaestrutura exportadora que estaria operativa no início de 2027. Estima-se que em 2028 sua rampa de produção (ramp up) poderá chegar a 700.000 barris, duplicando a produção atual de Vaca Muerta.
No front convencional, a expectativa se transfere para as novas operadoras independentes e PMEs que estão assumindo o controle das áreas maduras das quais a YPF desinvestiu. Embora exista tecnologia de recuperação terciária para mitigar o declínio natural, requer-se capital, e o foco dessas companhias será otimizar esses jazimentos.
Alfredo S. Quiroga