26/06/2026 22:03 - Economia
Em uma jornada financeira complexa, marcada por vencimentos elevados e tensão cambial, o Governo argentino realizou uma licitação mista que combinou a captação de dólares frescos com uma liberação estratégica de pesos. A operação busca enfrentar o pagamento de bonos por USD 4,3 bilhões programado para o início de julho, um compromisso crucial para o calendário financeiro do país.
O eixo da operação foi a colocação do título AO28, o instrumento escolhido para reunir os fundos necessários. Foram adjudicados USD 266 milhões a uma Taxa Interna de Retorno Efetiva Anual (TIREA) de 7,83% e uma Taxa Nominal Anual (TNA) de 7,56%.
Esta taxa representa uma queda em relação aos 8% pagos em instâncias anteriores, um sinal positivo de confiança dos investidores. Além disso, abrir-se-á um segundo tramo por até USD 100 milhões adicionais na próxima segunda-feira, mantendo o mesmo preço de corte.
Em moeda local, a estratégia marcou uma mudança de rumo. O Tesouro decidiu não renovar a totalidade dos vencimentos (que superavam os $16 trilhões de pesos), alcançando um rollover (renovação) de 81,26%. Isso significa que o Estado renovou pouco mais de oito de cada dez pesos que devia, liberando aproximadamente $3 trilhões de pesos ao mercado.
Esta decisão busca aliviar a liquidez do mercado, que nas últimas jornadas mostrou sintomas de stress com taxas overnight em alta. "Vemos acertada a decisão de não rolar 100% dos vencimentos e deixar pesos no mercado", avaliou Martín de la Fuente, analista da Bavsa.
A licitação ofereceu um cardápio variado de instrumentos para atrair diferentes perfis de investidores. O título mais demandado foi a LECAP (Letra do Tesouro em Pesos) com vencimento em novembro de 2026, que captou $4,18 trilhões de pesos. As taxas oferecidas refletiram o contexto atual:
A consultoria Equilibra destacou que, pela primeira vez desde fevereiro, o Tesouro não renovou a totalidade dos vencimentos, conseguindo estender a vida média da dívida para 1,81 anos e postergando compromissos por $6,5 trilhões de pesos até 2028.
É importante notar que na Argentina utiliza-se a escala longa para grandes números: 1 bilhão argentino (1.000.000 de milhões) equivale a 1 trilhão na escala curta (usada no Brasil e EUA). Portanto, quando se fala de "3 billones de pesos", refere-se a 3 trilhões de pesos argentinos.
A estratégia agora se concentra na segunda volta da licitação do título AO28 que ocorrerá na próxima segunda-feira. O sucesso desta operação adicional será determinante para completar o financiamento necessário e definir a margem de manobra financeira do Governo para o segundo semestre do ano, em um contexto onde a liquidez em pesos começa a se incrementar.
Alfredo S. Quiroga