01/07/2026 09:39 - Politica
O presidente Javier Milei marcou uma mudança de rumo em seu governo com a posse de Diego Santilli como novo chefe de Gabinete de Ministros. A cerimônia, realizada em 30 de junho de 2026 às 17:30 no Salão Branco da Casa Rosada (sede da presidência argentina), contou com a presença de 14 governadores aliados, num sinal claro de "acordismo" político que contrasta com o estilo confrontativo que caracterizou a gestão anterior.
Manuel Adorni renunciou em 27 de junho de 2026 após um escândalo por incremento patrimonial de 775%, passando de $20 milhões para $944 milhões de pesos argentinos. A decisão foi tomada depois de três meses de tensão crescente que afetou a imagem do governo.
Segundo dados do analista Alejandro Catterberg, Adorni gerou uma perda de 10 pontos de imagem entre os eleitores de Milei e de 20 pontos entre os eleitores do PRO (o partido de centro-direita que apoia o governo) que apoiaram o presidente no segundo turno. Uma frase atribuída a uma pessoa próxima a Karina Milei (secretária geral da presidência e irmã do presidente) sintetizou o problema: "Faz um mês que não posso ir a La Rioja (uma província no norte do país). Porque cada vez que vou, todos me perguntam somente por Adorni".
Nota: Maximiliano Pullaro (governador de Santa Fe) não compareceu por ter uma reunião de Gabinete ampliado em sua província.
O analista político Diego Sehinkman descreveu a mudança como uma "dose de Realpolitik". Santilli, de 59 anos e com trajetória desde 1999, traz habilidades sociais e de negociação que o governo necessitava urgentemente. Foi vice-chefe de Governo da CABA (cidade de Buenos Aires) entre 2015 e 2021, e ministro do Interior desde novembro de 2025.
O novo porta-voz Adrián Ravier já manifestou uma postura diferente em relação ao jornalismo: "Não se deve atacar o jornalismo. É uma atividade valiosa". Esta declaração contrasta com a postura confrontativa da equipe anterior.
Um dos focos de atenção é a relação com Patricia Bullrich, chefe do bloco do La Libertad Avanza (partido de Milei) no Senado. Segundo informou o jornal La Nación, Karina Milei criou um novo grupo de WhatsApp com senadores libertários, administrado por ela, em paralelo ao que Bullrich já gerenciava.
Este movimento reflete a intenção da irmã do presidente em ter controle direto sobre as negociações parlamentares sem depender de intermediários. A situação mostra a complexidade das alianças internas do oficialismo de cara às eleições de 2027.
Reforma política: O governo busca a anulação das PASO (Primárias Abertas, Simultâneas e Obrigatórias), um sistema único de eleições primárias na Argentina que gera resistências na oposição e exige negociações com os governadores.
Lei de Lemas: Discute-se se o oficialismo tolerará esta norma provincial (que permite que partidos apresentem múltiplas candidaturas sob uma mesma coligação) em troca de apoio para derrogar as PASO, embora seja muito questionada.
Posição do PRO: O deputado Jesús Ritondo assinalou que o PRO (Proposta Republicana, o principal partido da coligação governista) está para "blindar a mudança", embora possam apresentar candidatos próprios em 2027, dando prioridade a Milei no espaço de centro-direita.
O governo precisa mostrar resultados econômicos tangíveis. O EMAE (Estimador Mensual de Atividade Econômica, um indicador similar ao PIB mensal) registrou uma queda de 1,5%, num padrão de sobe e desce que preocupa o oficialismo. No entanto, o BCRA (Banco Central da Argentina) acumulou compras por USD 11.000 milhões em 2026 e as reservas internacionais alcançam USD 47.081 milhões.
O superávit comercial acumulado entre janeiro e maio de 2026 atingiu USD 11.783 milhões, um recorde que o governo tenta capitalizar politicamente.
A saída de Adorni e a chegada de Santilli representam um reconhecimento tácito de que o governo não pode avançar sozinho. Como assinalou a análise do canal TN: "Os irmãos Milei perdem a autossuficiência política. Começam a reconhecer que sós não podem, que vão precisar de gente que não vem deles, e que vão ter que fazer algo que é o que mais lhes custa. Confiar".
Alfredo S. Quiroga