02/07/2026 09:11 - Turismo
Enquanto grande parte do mundo lida com o turismo em massa e praias lotadas, existe um canto do planeta que vive uma realidade diametralmente oposta. Kiribati, um arquipélago perdido na imensidão do oceano Pacífico, foi reconhecido pela Organização Mundial do Turismo (OMT) como o país menos visitado do mundo em 2026, com apenas 9.500 visitantes por ano.
Até lá chegou Ramiro Cristofaro, um viajante de 33 anos natural de Vicente López (uma cidade na província de Buenos Aires, Argentina). Após completar sua volta ao mundo em julho de 2025, ele relembrou sua passagem por esta ilha remota em 2024. 'Fui o único turista que desceu do avião', relatou o argentino em conversa com o Infobae.
Kiribati é composto por 32 atolos e ilhas de coral dispersas sobre uma gigantesca superfície oceânica, estendendo-se pelos quatro hemisférios. Sua capital, Tarawa, fica a cerca de 4.000 quilômetros a sudoeste do Havaí. Chegar lá exige uma autêntica odisseia aérea que pode incluir escalas em Singapura, Los Angeles, Fiji ou Havaí.
Cristofaro chegou de Fiji, mas alertou que as companhias aéreas na Oceania dependem de rotas estrangeiras com voos que operam apenas uma ou duas vezes por semana. As tarifas para encurtar tempos de espera podem chegar a 4.000 euros, superando facilmente as 30 horas de viagem. 'Se eu perdesse o voo, poderia ficar preso por uma semana ou muito mais tempo', advertiu o viajante, que inclusive precisou encurtar sua estadia para dois dias devido à falta de combustível em outra ilha do Pacífico.
O que é um atolo? É uma ilha de coral em forma de anel que encerra uma lagoa interior, formada pelo acúmulo de coral sobre um vulcão submerso. Tarawa tem uma geografia tão singular quanto frágil: em alguns setores, a distância entre uma costa e a outra é tão reduzida que se pode ver o oceano de ambos os lados ao mesmo tempo. 'Há lugares onde a largura da ilha é de apenas dez metros. É uma loucura', descreveu Ramiro.
Esta pequena altitude acima do nível do mar torna Kiribati um dos países mais vulneráveis às mudanças climáticas. Segundo o viajante, há zonas que várias vezes ao ano ficam debaixo d'água por causa das marés, e já se fala em realocar a população em outros países, embora sua gente, muito apegada à sua terra, não deseje ir embora.
Ao contrário do que se poderia imaginar, Kiribati não está preparado para o turismo: não há resorts, guias ou agências. Na verdade, uma das imagens que mais surpreendeu Cristofaro foi a quantidade de contêineres marítimos abandonados por toda parte. Isso ocorre porque o país importa grande parte do que consome, mas exporta muito pouco, então os contêineres vazios ficam por lá porque mandá-los de volta é mais caro do que fabricar novos.
Além de sua beleza natural, a ilha guarda história. Foi palco da Batalha de Tarawa em novembro de 1943, entre forças americanas e japonesas, que deixou 6.400 mortos. Oito décadas depois, os vestígios continuam visíveis: 'A ilha está cheia de restos de guerra. Há tanques, bunkers, estruturas militares abandonadas. Você pode caminhar entre eles e subir em alguns', contou o viajante argentino.
Além de Tarawa, Kiribati abriga a Phoenix Islands Protected Area (PIPA), uma reserva marinha protegida de mais de 408.000 quilômetros quadrados declarada Patrimônio da Humanidade pela UNESCO, lar de centenas de espécies marinhas. Também está localizada Kiritimati (ou Ilha do Natal), um destino privilegiado para a pesca esportiva.
A vida em Kiribati acontece em outro ritmo. 'Tudo ocorre muito mais devagar. As pessoas estão sentadas conversando, vivendo o dia a dia. Você não vê o ritmo frenético das grandes cidades', resumiu Cristofaro, que admite não haver muito o que fazer além de sentar para olhar a água. Mas talvez aí resida seu maior atrativo: a sensação de ter chegado a um canto do planeta que permanece praticamente intacto diante do avanço do turismo global.
Alfredo S. Quiroga