15/07/2026 13:11 - Economia
Para entender a magnitude desta notícia, é preciso saber que a Argentina é um país federal, onde o governo nacional repassa parte de seus impostos às províncias (estados) através de um sistema chamado Coparticipação. Diante de uma queda na arrecadação, o governo nacional, liderado pelo presidente Javier Milei, autorizou uma ferramenta de assistência financeira para a província de Córdoba, governada por Martín Llaryora. O teto máximo liberado é de $400.000 milhões de pesos argentinos (ARS), um valor que equivale à arrecadação total de um mês na província. Este dinheiro será devolvido com uma taxa de juros de 15% ao ano, através de retenções automáticas nas futuras remessas de coparticipação.
O diretor da consultoria Politikon Chaco, Alejandro Pegoraro, analisou a medida em entrevista ao jornal La Voz e a definiu como "um curativo para uma ferida que está aberta e precisa de sutura, não de bandagem". O especialista destacou que, embora o valor autorizado seja significativo, o desembolso final dependerá das necessidades de caixa da província e da vontade política do Executivo nacional.
Uma das novidades mais positivas do acordo é a decisão de Córdoba de repassar 20% destes fundos aos seus municípios, uma prática qualificada por Pegoraro como "pouco frequente" no resto do país. "Que se repasse aos municípios é uma notícia muito boa porque reativa um pouco a dinâmica do financiamento municipal, que vem muito estagnada em geral", afirmou o especialista.
Esta injeção de capital busca evitar cortes na cadeia de pagamentos com fornecedores locais e manter o nível de atividade econômica no interior da província, gerando um impacto direto e positivo nas comunidades.
O pedido de assistência enquadra-se em um contexto de fraqueza na arrecadação. Segundo a Direção Geral de Rendas de Córdoba, os ingressos totais em junho de 2026 alcançaram $978.824 milhões de pesos ARS, o que implicou uma queda real de 4% em relação a junho de 2025. No acumulado do primeiro semestre, os recursos provinciais acumulam uma diminuição real de 3%.
O retrocesso é explicado principalmente pela queda nos impostos ligados à atividade econômica (como IVA, Imposto de Renda, Imposto sobre Grosse de Receita e Impostos sobre Atos e Contratos), que em junho registraram uma contração real de 8%. No entanto, houve exceções esperançosas: os impostos patrimoniais mostraram um crescimento real de 31%, impulsionados pelo Imposto Imobiliário rural (+55%) e pelo Imposto Automotivo (+18%).
O especialista também alertou sobre a pressão gerada pelo descumprimento dos convênios com a ANSES (Administração Nacional da Seguridade Social da Argentina). Em junho de 2026, a província não recebeu os $10.000 milhões de pesos ARS pactuados para o financiamento do déficit da Caixa de Aposentadorias, uma cota que permanece vencida até a data.
Em relação aos Aportes do Tesouro Nacional (ATN) — que seriam como transferências extraordinárias do governo federal —, Pegoraro observou que Córdoba esteve historicamente "no fim da fila" na distribuição destes recursos. Sob a gestão atual, era uma das poucas províncias que ainda não havia recebido assistência direta deste tipo, o que marca um marco nas relações financeiras e políticas entre ambas as administrações.
Alfredo S. Quiroga