Milhares de argentinos foram às ruas em Buenos Aires para denunciar o endividamento recorde das famílias. O sindicato ATE afirma que a situação é dramática e que o governo de Javier Milei não pode mais ignorar o problema. Entenda o que está acontecendo e por que isso pode afetar toda a região.

No dia 20 de agosto de 2026, uma enorme manifestação convocada pela CGT (Confederação Geral do Trabalho), pelas duas centrais sindicais CTA e por outras organizações sociais tomou a região da Praça de Maio e o Ministério da Economia, em Buenos Aires. O protesto teve um objetivo claro: denunciar o nível recorde de endividamento das famílias argentinas e cobrar medidas urgentes do governo.

O secretário-geral do sindicato ATE, Rodolfo Aguiar, fez um alerta contundente: “Não se pode descartar que o alto nível de endividamento acabe se tornando o gatilho para uma explosão social no país”. A declaração reflete a tensão que se acumula em um país que enfrenta uma das piores crises econômicas de sua história recente.

Números que assustam

Segundo dados do Banco Central da Argentina citados pelos organizadores do protesto, mais de 20 milhões de pessoas possuem dívidas ativas. A inadimplência das famílias quadruplicou desde dezembro de 2023, atingindo 17,5% dos créditos pessoais. O movimento também criticou duramente as carteiras virtuais (aplicativos de pagamento que funcionam como bancos digitais) que atuam como credores com taxas de juros consideradas “usurárias”.

Uma pesquisa realizada pela ATE entre trabalhadores do setor público revelou dados alarmantes: 87% dos entrevistados têm dívidas e 73% devem para várias instituições ao mesmo tempo. O levantamento mostrou ainda que 40% das pessoas usam o dinheiro emprestado para emergências médicas, educação ou aluguel, enquanto 37% precisam do crédito para pagar outras dívidas ou comprar comida e roupas. Além disso, 85,4% relataram piora no bem-estar emocional por causa das dívidas.

Críticas ao governo Milei

Aguiar foi direto nas críticas ao presidente: “O Presidente mente quando diz que não colocaram uma pistola na cabeça das pessoas. São as políticas econômicas dele e as de Caputo (ministro da Economia) que se tornaram uma 9 milímetros apoiada na têmpora de milhões de argentinos”. Ele também questionou os benefícios concedidos ao setor financeiro: “É inacreditável que tenham beneficiado o Mercado Pago com 68 bilhões de dólares em contribuições”.

A CGT entregou uma nota oficial ao ministro Luis Caputo exigindo a intervenção do Banco Central e medidas de alívio para famílias e pequenas empresas. O presidente Javier Milei, por sua vez, tem repetido que a dívida é “um assunto entre privados”, o que aumenta a insatisfação popular.

Contexto: por que isso importa?

A Argentina vive um cenário de queda do salário real e aumento da pobreza. Para se ter uma ideia, a inflação ao consumidor em julho foi de 2,1%, mas o acumulado em 12 meses supera 30%. A inadimplência nas carteiras virtuais subiu para 30,1% em junho, contra 7,3% em novembro de 2024. Isso significa que cada vez mais pessoas não conseguem pagar nem mesmo os empréstimos de pequeno valor feitos por aplicativos.

O movimento sindical promete continuar a pressão: uma nova manifestação já está marcada para 2 de setembro. A expectativa é que a crise da dívida familiar se torne um dos principais temas da agenda política argentina nos próximos meses.

O que é a CGT e a ATE?

A CGT (Confederação Geral do Trabalho) é a principal central sindical da Argentina, fundada em 1930, que reúne a maioria dos sindicatos do país. A ATE (Associação dos Trabalhadores do Estado) é um dos maiores sindicatos de servidores públicos, com forte atuação em todo o território nacional. Ambas têm papel central na organização de protestos e negociações com o governo.