O emprego privado registrado não encontra piso
O mercado de trabalho argentino atravessa um dos seus momentos mais críticos. Segundo dados do Sistema Integrado Previsional Argentino (SIPA), divulgados pela Secretaria de Trabalho, o emprego privado registrado perdeu 9.059 postos (-0,15%) durante maio de 2026. Esse número se soma a uma sequência de 13 meses consecutivos de quedas, consolidando uma tendência que não mostra sinais de reversão.
A perda acumulada desde novembro de 2023, mês de referência anterior à posse de Javier Milei, chega a 241.176 postos de trabalho privados registrados (-3,78%). Se considerarmos todas as categorias do emprego formal, a queda total desde esse ponto de partida supera os 337 mil postos, segundo cálculos do pesquisador Luis Campos, do Instituto de Estudos e Formação da CTA Autônoma.
Dados-chave do relatório SIPA - Maio 2026
| Indicador | Variação mensal | Variação anual |
|---|---|---|
| Emprego privado registrado | -9.059 postos (-0,15%) | -135.438 postos (-2,16%) |
| Emprego público | +736 postos (+0,02%) | -16.701 postos (-0,49%) |
| Serviço doméstico | +1.352 postos (+0,3%) | +6.319 postos (+1,4%) |
| Monotributo (autônomos simplificados) | +2.676 inscritos | +42.672 inscritos |
| Autônomos (tradicionais) | -3.059 postos (-0,79%) | -6.514 postos (-1,65%) |
Indústria e comércio: os setores mais atingidos
A destruição de empregos não é homogênea. Os setores mais afetados são aqueles que historicamente concentram o maior número de trabalhadores formais:
- Indústria manufatureira: -52.341 postos (-4,5%) no último ano
- Comércio: -39.154 postos (-3,1%)
- Transporte, armazenamento e comunicações: -13.915 postos (-2,69%)
- Intermediação financeira: -6.924 postos (-4,6%)
Esses quatro setores representam 49% do emprego assalariado registrado privado, cerca de 3 milhões de trabalhadores, e acumulam retrocessos persistentes desde junho de 2025. Em contraste, Agricultura, pecuária e silvicultura e Exploração de minas e pedreiras mostraram melhoras desde fevereiro, embora o setor de mineração ainda registre uma queda anual de 3.503 postos (-3,88%).
Fechamento de empresas: mais de 30 mil em dois anos e meio
O relatório mensal da organização Fundar complementa o panorama: desde dezembro de 2023, foram perdidas 30.633 empresas, o que equivale a 6% do total de firmas existentes no início do governo. Trata-se da pior queda registrada nos primeiros 30 meses de qualquer governo desde que o registro é feito.
Em maio, foram fechadas 2.371 empresas em relação a abril (-0,49%), acumulando 16 meses consecutivos de queda. A comparação anual também é negativa: há 16.560 empresas a menos do que em maio de 2025 (-3,3%), com 27 quedas anuais consecutivas.
O total de empresas ativas na Argentina ficou em 481.724, bem abaixo do máximo histórico de 540.282 firmas alcançado em fevereiro de 2012.
Casos emblemáticos de fechamentos recentes
- Will Der: fechou sua fábrica em Las Flores e bloqueou a entrada de 120 trabalhadores em Pacheco
- Unilever: fechou a fábrica de vegetais desidratados da Knorr, desligando 60 trabalhadores
- Granja Tres Arroyos: desligou 250 trabalhadores por gripe aviária e queda de preços
- Tía Maruca: fechou definitivamente sua fábrica em San Juan
- Peabody: deixou de produzir na Argentina após 16 anos e transferiu suas máquinas para o Paraguai
- Indumentaria Catamarca: fechará em 31 de agosto, passando de 150 para 20 funcionários
Salário real caiu abaixo de novembro de 2023
A perda de empregos se combina com uma queda do poder de compra. O salário real médio do emprego privado registrado caiu 0,9% em junho, depois de recuar 2,9% em maio. Pela primeira vez em 20 meses, ficou 0,6% abaixo do nível de novembro de 2023.
A explicação é que os salários nominais reduziram seu ritmo de crescimento mais rápido do que a inflação: enquanto nos primeiros quatro meses de 2026 as remunerações aumentaram em média 2,1% ao mês, em abril e maio o aumento foi de apenas 1%.
Convenções coletivas que mais perderam poder de compra
| Convenção | Perda real anual |
|---|---|
| Têxteis | -12,6% |
| Metalúrgicos | -12,4% |
| Comércio | -11% |
| Calçados | -10,5% |
No extremo oposto, os encarregados de edifícios conseguiram um aumento real de 5,9%, caminhoneiros 3,1%, e construção e farmácia 2,5%.
Apenas Neuquén cresce: o mapa provincial
A queda do emprego atinge quase todas as províncias. Segundo dados do SIPA processados por Luis Campos, apenas Neuquén (+7,6%), Río Negro (+3,4%) e San Juan (+0,4%) registraram crescimento do emprego privado registrado. No restante do país, as quedas variam de -1% em Tucumán até -17% em Terra do Fogo e Santa Cruz.
O relatório da Fundar confirma essa tendência: Neuquén é a única província que aumentou sua quantidade de empresas desde novembro de 2023 (+1,6%), impulsionada pelo desenvolvimento de Vaca Muerta, a gigantesca reserva de gás e petróleo não convencional na Patagônia argentina. No extremo oposto, La Rioja (-18,87%), Catamarca (-14,09%) e Terra do Fogo (-13,56%) são as mais afetadas.
O que esperar daqui para frente?
As perspectivas não são animadoras. A Pesquisa de Indicadores Laborais (EIL) voltou a dar negativo em junho, antecipando que a queda pode se aprofundar. A consultoria LCG destacou que o Regime de Incentivos à Formalização Laboral (RIFL), em vigor desde março, não terá um impacto sensível no curto prazo sobre a criação de emprego formal.
"A dinâmica da atividade, impulsionada tanto pela demanda interna quanto pela externa, é uma variável de maior peso na hora de tracionar o mercado de trabalho do que qualquer mudança na legislação laboral", alertaram da LCG. "Não há sinais de que o mercado formal de força de trabalho tenha encontrado seu piso", concluiu Luis Campos.
Fontes: SIPA, Secretaria de Trabalho, Fundar, relatório de Luis Campos (CTA Autônoma), LCG.