A economia argentina enfrenta um momento crítico. Segundo o centro de estudos Fundar, desde novembro de 2023 o país perdeu 30.633 empresas — 6% do total — com 16 meses consecutivos de quedas. Só em maio, foram 2.371 negócios a menos, e o emprego privado registrado já acumula 13 meses de retrocesso. Indústria, comércio e transporte são os setores mais atingidos.

A Argentina, conhecida por sua rica história e cultura vibrante, está atravessando uma das fases mais sombrias de sua economia recente. Um relatório detalhado do centro de estudos Fundar, baseado em dados oficiais da Superintendência de Riscos do Trabalho (SRT) — o órgão que regula a segurança no trabalho no país —, revela que desde novembro de 2023, quando Javier Milei assumiu a presidência, o país perdeu 30.633 empresas, o equivalente a 6% do total de firmas ativas no início de seu mandato. Este é, segundo o relatório, o pior desempenho registrado nos primeiros 30 meses de qualquer governo desde que os registros começaram a ser feitos.

O Monitor Mensal de Empresas da Fundar, referente a maio de 2026, mostra que naquele mês foram fechadas 2.371 empresas em comparação com abril (uma redução de 0,49%), somando 16 meses consecutivos de quedas. A comparação anual é igualmente preocupante: são 16.560 empresas a menos do que em maio de 2025, completando 27 meses de declínio contínuo na comparação ano a ano.

Um colapso que atinge todos os setores

O levantamento detalha a situação por ramo de atividade, e os números são contundentes. 15 dos 18 setores analisados tiveram queda mensal em maio, 14 caíram na comparação anual e outros 14 acumulam contração desde novembro de 2023. Os mais prejudicados desde o início do governo Milei são:

  • Transporte e armazenagem: queda acumulada de 17,05%.
  • Indústria manufatureira: retrocesso de 13,81%.
  • Alojamento e gastronomia: foi o setor mais afetado em maio, com queda de 1,38% no mês.

No outro extremo, eletricidade e gás cresceram 0,25% no mês e acumulam alta de 1,74% desde novembro de 2023. Já os serviços administrativos se destacam como o setor mais dinâmico, com crescimento acumulado de 8,15%.

O mapa provincial: Neuquén, a única exceção

A crise não distingue regiões. Em maio, as 24 províncias argentinas perderam empresas em relação a abril, e 23 das 24 apresentam quedas tanto na comparação anual quanto no acumulado desde novembro de 2023. A única jurisdição que aumentou o número de firmas foi Neuquén, com crescimento de 1,6%, impulsionado pelo desenvolvimento de Vaca Muerta, uma das maiores reservas de gás não convencional do mundo, localizada na Patagônia argentina.

No extremo oposto, as províncias mais castigadas desde a posse do atual governo são La Rioja (-18,87%), Catamarca (-14,09%) e Terra do Fogo (-13,56%).

Números-chave

  • 30.633 empresas perdidas desde nov. 2023
  • 2.371 fechamentos só em maio de 2026
  • 16 meses consecutivos de queda
  • 481.724 empresas ativas em maio
  • 110.000 empregos perdidos em um ano
  • -241.176 postos privados desde nov. 2023

Emprego privado em queda livre

Os dados da Secretaria de Trabalho argentina, através do Sistema Integrado Previdenciário Argentino (SIPA), confirmam que em maio foram perdidos 9.059 postos de trabalho no setor privado registrado (-0,15%), o décimo terceiro mês consecutivo de queda. O emprego público cresceu em 736 vagas e o monotributo (regime simplificado para autônomos) ganhou 2.676 novos inscritos, mas esses números não conseguem compensar a sangria do emprego assalariado.

Desde novembro de 2023, o emprego privado registrado acumula perda de 241.176 postos (-3,78%), conforme dados do SIPA. Na comparação anual, a queda é de 135.438 empregos (-2,16%).

Setores que mais destruíram empregos

  • Indústria manufatureira: -52.341 postos (-4,5%)
  • Comércio: -39.154 postos (-3,1%)
  • Transporte, armazenagem e comunicações: -13.915 postos (-2,69%)
  • Intermediação financeira: -6.924 postos (-4,6%)

Esses quatro setores representam 49% do emprego assalariado registrado privado, cerca de 3 milhões de trabalhadores.

Salário real perde para a inflação

A perda de empregos se combina com a queda do poder de compra. O salário real do setor privado caiu 0,9% em junho, após recuar 2,9% em maio. Assim, pela primeira vez em 20 meses, o salário real ficou 0,6% abaixo do nível de novembro de 2023.

O motivo: os salários nominais cresceram apenas 1% ao mês em abril e maio, muito abaixo do ritmo dos preços. As negociações coletivas mostram fortes diferenças: enquanto síndicos de edifícios conseguiram aumento real de 5,9% e caminhoneiros de 3,1%, os trabalhadores têxteis perderam 12,6%, os metalúrgicos 12,4% e o comércio 11% em termos reais anuais.

Fechamentos emblemáticos e anúncios de investimento

O relatório da Fundar também lista casos concretos de empresas que fecharam ou reduziram operações em maio:

  • Will Der: a marca de roupas esportivas fechou sua fábrica em Las Flores e bloqueou a entrada de 120 trabalhadores em Pacheco.
  • Unilever: fechou a fábrica de vegetais desidratados da marca Knorr e demitiu 60 funcionários.
  • Granja Tres Arroyos: demitiu 250 trabalhadores por causa da gripe aviária e da queda de preços.
  • Tía Maruca: fechou definitivamente sua fábrica em San Juan, que operava com apenas 52% de sua capacidade.
  • Peabody: deixou de produzir na Argentina após 16 anos e transferiu suas máquinas para outro país.

No entanto, também há notícias positivas. Mercado Livre, o gigante do e-commerce latino-americano, abriu um centro de armazenamento de 60.000 m² em Córdoba, com investimento previsto de US$ 3,4 bilhões para 2026. Pampa Energia avança na construção de uma fábrica de ureia granulada com capacidade de 2,1 milhões de toneladas anuais, e a Companhia MEGA expande sua produção de líquidos de gás natural — ambas sob o regime do RIGI, o incentivo fiscal criado para grandes investimentos.

O diagnóstico oficial aponta para um problema estrutural: “a perda de unidades produtivas se explica fundamentalmente por um déficit na taxa de natalidade empresarial, mais do que por uma aceleração atípica nos encerramentos”, destaca o informe da Secretaria de Trabalho. Cada vez nascem menos empresas capazes de compensar as que saem do mercado, e o emprego registrado segue pagando o preço do ajuste econômico.

Contexto para o leitor estrangeiro

A Argentina é a segunda maior economia da América do Sul, mas enfrenta desafios históricos de instabilidade. Javier Milei, economista libertário, assumiu a presidência em dezembro de 2023 com a promessa de um ajuste fiscal radical. O plano incluiu cortes drásticos de gastos públicos e desvalorização cambial — o peso argentino perdeu mais de 50% do valor em poucos meses. Enquanto o governo comemora a queda da inflação (que chegou a 25% ao mês no final de 2023), o custo social é evidente: o desemprego e o fechamento de empresas atingem níveis recordes, afetando especialmente as províncias mais pobres do norte do país.