A atividade financeira argentina só foi retomada nesta terça-feira após o feriado do Paso a la Inmortalidad del General San Martín, e os números não foram dos melhores para o governo. O dólar blue – como é conhecido o câmbio paralelo argentino – escalou para $1.555 para venda, enquanto o oficial fechou em $1.515 nas telas do Banco Nación. O risco-país, medido pelo JP Morgan, chegou a 506 pontos básicos, um máximo desde o final de maio.
Cotações de fechamento de 18 de agosto
| Tipo | Compra | Venda |
|---|---|---|
| Dólar oficial | $1.465 | $1.515 |
| Dólar blue | $1.535 | $1.555 |
| Dólar atacado | — | $1.487,50 |
| Dólar MEP | — | $1.516,43 |
| Dólar CCL | — | $1.578,12 |
| Dólar tarjeta | — | $1.969,50 |
| Dólar cripto (DAI) | — | $1.609,86 |
Valores em pesos argentinos (ARS). O dólar tarjeta inclui impostos (30% PAÍS + 30% Ganancias).
Risco-país e ações
O índice elaborado pelo banco americano JP Morgan subiu 8 pontos-base em relação à sexta-feira e atingiu 506 unidades, o valor mais alto desde o final de maio. No ranking latino-americano, a Argentina tem o pior risco-país, seguida por Equador (422) e Bolívia (407). O Uruguai, por outro lado, ostenta 68 pontos.
As ações argentinas em Wall Street caíram até 6,5%, com baixas em bancos e empresas de energia. No MERVAL (principal índice da bolsa de Buenos Aires), as quedas dominaram o dia: Supervielle -4,6%, Transportadora Gas del Norte -4,6%, Transener -4,8%, enquanto YPF foi a única grande alta (+1,9%).
BCRA comprou apenas US$ 10 milhões
O Banco Central da República Argentina (BCRA) informou que adquiriu apenas US$ 10 milhões no mercado oficial de câmbio, a segunda menor compra do ano. Com isso, as reservas brutas ficaram em US$ 49.592 milhões. A média diária de compras em agosto é de US$ 31 milhões, bem abaixo dos US$ 103 milhões diários de julho e dos US$ 137 milhões de maio.
Essa desaceleração na acumulação de reservas é um sintoma da estratégia do governo para manter o dólar atacadista abaixo da barreira de $1.500. A equipe econômica, liderada por Luis Caputo e Santiago Bausili, busca sustentar o câmbio, controlar as taxas e acumular reservas – um equilíbrio que os analistas descrevem como "frágil".
Superávit fiscal e dados econômicos
O Ministério da Economia informou que julho fechou com um superávit primário de $2.960.333 milhões e um superávit financeiro de $244.897 milhões, mesmo após o pagamento de juros da dívida. Nos primeiros sete meses de 2026, o superávit financeiro acumula 0,9% do PIB, abaixo da meta de 1,4% acordada com o FMI.
Além disso, o INDEC (instituto de estatísticas argentino) divulgou que a inflação no atacado de julho foi de 0,8%, a mais baixa em 14 meses e o terceiro mês consecutivo de desaceleração. A medição anual ficou em 31,3%.
Em outra frente, o atraso nos pagamentos tornou-se a segunda maior preocupação das pequenas e médias indústrias: 62% sofreram atrasos nos recebimentos e 24% não conseguiram pagar em dia, segundo relatório da Fundación Observatorio Pyme (FOP).
Contexto: taxas globais e conflito no Oriente Médio
Os mercados internacionais estão tensos devido ao conflito entre Estados Unidos e Irã, que mantém fechado o Estreito de Ormuz. O petróleo superou os US$ 91 por barril (Brent), pressionando os custos em todo o mundo. O rendimento do título do Tesouro americano de 10 anos superou 4,70%, máximo desde 2007, e o de 30 anos atingiu 5,34%. Esse aumento global das taxas de juros reduz a atratividade dos títulos emergentes, como os argentinos.
O mercado segue atento à agenda política local, com a possível eliminação das PASO (primárias abertas) e a aliança entre o PRO e La Libertad Avanza para as eleições de 2027. Para quem acompanha de fora, vale lembrar que a Argentina vive um momento de forte controle cambial, com múltiplas cotações para o dólar – um cenário que reflete décadas de volatilidade econômica e que segue sendo o principal termômetro da confiança dos investidores no país.