Um respiro para os mercados: o Tesouro intervém
Wall Street, o principal mercado de ações dos Estados Unidos, fechou com ganhos nesta quarta-feira, 19 de agosto de 2026, depois que o Departamento do Tesouro dos EUA anunciou que dobrará, no mínimo, o tamanho de suas operações de recompra de títulos de longo prazo, passando de US$ 2 bilhões para US$ 4 bilhões por operação a partir de 9 de setembro. A medida visa injetar liquidez no mercado de dívida e aliviar a pressão sobre os rendimentos, que haviam atingido máximas de quase duas décadas.
O Dow Jones subiu 0,22% para 53.463,11 pontos, o S&P 500 ganhou 0,24% para 7.710,70 e o Nasdaq Composite avançou 0,16% para 26.331,09. O movimento altista foi atribuído por analistas como Peter Cardillo, da Spartan Capital Securities, à decisão do Tesouro de 'apaziguar as tensões no mercado de títulos'.
Rendimentos em queda: o título de 30 anos cai de máximas de 2007
O rendimento do título do Tesouro de 30 anos recuou 9 pontos-base para 5,19% (segundo a Bloomberg Línea) ou 5,18% (segundo o La Nación), depois de tocar na terça-feira 5,327%, seu nível mais alto desde junho de 2007. O título de 10 anos caiu para 4,64% (La Nación) ou 4,70% (El Cronista). A queda das taxas longas deu fôlego às ações, especialmente às de tecnologia, que haviam sofrido forte correção na terça-feira.
O Tesouro também realizou nesta quarta-feira um leilão de US$ 16 bilhões em títulos de 20 anos, que foi acompanhado de perto para medir o apetite por dívida de longa duração. A demanda foi suficiente para manter a recuperação dos títulos.
Atas da Fed: divisão interna e debate sobre taxas
As atas da reunião de julho do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA), publicadas nesta quarta-feira, revelaram que vários funcionários favoreceram um aumento das taxas e que muitos consideraram necessário um maior aperto se a inflação não diminuir. Na reunião de 19 de julho, o Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) decidiu por 9 votos a 3 manter as taxas na faixa de 3,5% a 3,75%. Os dissidentes (Lorie Logan, Beth Hammack e Neel Kashkari) votaram por um aumento de 25 pontos-base.
O presidente do Fed, Kevin Warsh, propôs reduzir de oito para seis as reuniões anuais do órgão e suspender algumas coletivas de imprensa, segundo as atas. Os funcionários expressaram preocupação com a inflação, que está há mais de 65 meses acima da meta de 2%. A inflação de julho foi de 3,4% em termos anuais, segundo o Bureau of Labor Statistics.
Após a publicação, os mercados futuros estimam 65% de probabilidade de o Fed manter as taxas inalteradas em setembro, segundo a ferramenta FedWatch da CME.
Petróleo em alta por tensão no Oriente Médio
O petróleo Brent subiu 0,38% para US$ 91,37 o barril (Âmbito) ou US$ 91,62 (Bloomberg Línea), enquanto o WTI ganhou 1,1% para US$ 85,83. A escalada ocorre em meio ao conflito entre EUA e Irã pelo Estreito de Ormuz. O presidente Donald Trump afirmou que não há conversas com o Irã e que o bloqueio naval continua. O Irã exige o cessar das hostilidades e o descongelamento de ativos antes de reabrir o estreito.
Além disso, Emirados Árabes Unidos anunciaram a ruptura de todos os seus vínculos econômicos com o Irã, após acusar Teerã de lançar mísseis balísticos contra seu território. Essa decisão pode intensificar a crise e manter o petróleo acima dos US$ 90, alimentando as pressões inflacionárias.
Bitcoin e ouro: os ganhadores do dia
O bitcoin atingiu seu nível mais alto desde o início de junho, subindo até US$ 69.749 (alta de 6% no dia) segundo o Cointelegraph, ou US$ 69.500 (Bloomberg Línea), seu maior avanço desde março. A criptomoeda reagiu à queda dos rendimentos e a expectativas regulatórias antes de uma reunião entre Trump e executivos do setor. O movimento provocou mais de US$ 1 bilhão em liquidações de posições vendidas em uma hora.
O ouro também se beneficiou: subiu até 3,8%, superando os US$ 4.499 por onça, seu maior nível desde 4 de junho. A prata ganhou 4%.
Movimentos corporativos em destaque
Entre as ações mais notáveis, Moderna disparou mais de 178% (ou 170% segundo outras fontes) depois que sua vacina de mRNA contra melanoma, combinada com Keytruda da Merck, teve sucesso em um ensaio de fase 3. Merck subiu 12,6%, impulsionando o Dow Jones. BioNTech ganhou 22% por expectativas regulatórias sobre sua vacina atualizada contra a Covid-19.
Marvell subiu 9,8% após anunciar uma aliança ampliada com Google para desenvolver chips de IA personalizados. Target avançou 4,3% ao elevar sua meta de vendas anuais, e Lowe's ganhou 2,4% apesar de cortar projeções. Estée Lauder superou expectativas com receita de US$ 3,6 bilhões e confirmou a redução de cerca de 10.000 empregos.
Contexto: dívida recorde e pressão estrutural
A dívida pública dos EUA se aproxima de US$ 40 trilhões, com déficits anuais de cerca de US$ 2 trilhões. Os pagamentos de juros atingiram US$ 1,4 trilhão nos últimos 12 meses, triplicando desde 2020. As grandes empresas de tecnologia (Alphabet, Amazon, Meta) emitiram cerca de US$ 220 bilhões em títulos durante 2026, mais que o dobro de 2025, para financiar investimentos em IA, competindo com o Tesouro pelo capital dos investidores.
Analistas como George Saravelos, do Deutsche Bank, compararam a medida do Tesouro a uma 'Operação Twist', embora tenham alertado que as recompras não resolvem os problemas fundamentais de déficit e inflação. O mercado continuará atento aos dados de inflação e emprego, bem como ao simpósio de Jackson Hole.
Fontes: Âmbito, Bloomberg Línea, El Cronista, La Nación, Cointelegraph.