No 23º Council of the Americas, o presidente Javier Milei defendeu sua gestão com duras críticas à oposição e aos economistas, mas o establishment mostrou sua fratura: enquanto alguns apoiam o rumo, outros alertam que a recessão e o mal-estar social podem abalar todo o programa econômico.

Um discurso que expôs a distância entre o relato e a realidade

Em 20 de agosto de 2026, no luxuoso Alvear Palace Hotel de Buenos Aires, foi realizada a 23ª edição do Council of the Americas, organizada pela Americas Society/Council of the Americas (AS/COA) em parceria com a Câmara Argentina de Comércio e Serviços (CAC). O evento, que reúne os principais nomes do poder econômico e político da região, foi o palco escolhido pelo presidente Javier Milei para defender sua gestão e expor os resultados de seu programa econômico.

No entanto, o discurso presidencial, longe de consolidar apoios, expôs uma fraturura crescente dentro do establishment. Segundo vários participantes e analistas, a apresentação de Milei foi vista como "errática" e "descontrolada", revelando uma dissonância cada vez mais difícil de ignorar entre o cenário descrito pelo governo e a percepção majoritária da população.

"O relato governista encontrou há meses uma parede que não consegue transpor e, a cada dia, ela fica mais alta", resumiu o colunista Claudio Jacquelin no jornal La Nación.

Os dados apresentados por Milei e as vozes que os questionam

Em sua intervenção, de quase uma hora, Milei revisou os eixos de sua gestão com números contundentes:

  • Inflação: afirmou que a taxa anual "caminha para 31,5%", após tê-la recebido em 211,4%, o que representa uma redução de 85%. Destacou que a inflação no atacado de julho foi de 0,8%, a mais baixa desde maio de 2025.
  • Crescimento: disse que a economia acumula uma expansão de "mais de dez pontos percentuais" nos dois primeiros anos de governo, com um EMAE que cresceu 0,8% mensal e 2,7% anual em junho.
  • Consumo: sustentou que "o consumo privado está em máximos históricos, assim como o PIB e as exportações".
  • Emprego: afirmou que "foram criados postos de trabalho", que o desemprego está em 7,8% e que o setor informal "está ganhando mais de quarenta por cento".
  • Déficit e dívida: disse que fez "um ajuste de quinze pontos do PIB", que "reduziu impostos em três" e que o risco-país "hoje está entre quatrocentos e cinquenta e quinhentos pontos".

Mas os especialistas consultados pelo Infobae e as declarações dos próprios empresários pintam um panorama mais complexo. Guido Zack, diretor de Economia da Fundar, foi contundente: "O consumo privado não está em recorde, não está em máximos históricos porque não é considerado em termos per capita. Não é a mesma coisa o componente consumo privado do PIB do que o consumo de massa". Sobre o emprego, Zack destacou que "a deterioração do mercado de trabalho é indubitável", com uma "destruição do emprego formal" e um aumento da informalidade.

Federico Machado, da consultoria LLZ, concordou: "O consumo de massa está caindo. O que se vê é uma destruição muito clara do emprego registrado, de melhor qualidade, e um forte crescimento do monotributo". Sobre o ajuste, Machado ponderou: "É verdade que fez um ajuste monumental, mas está exagerado. Se medisse os juros do Tesouro de hoje em forma nominal, o Tesouro teria déficit".

O establishment se divide: ganhadores e perdedores do modelo

A fratura do poder econômico ficou exposta no próprio evento. O presidente da CAC, Mario Grinman, foi o encarregado de abrir a conferência e lançou uma interpelação direta aos presentes: "De que lado você vai ficar?". Uma forma de reconhecer, segundo vários participantes, que o apoio ao governo já não é monolítico.

De um lado, os setores beneficiados pelo modelo: energia, petróleo, gás e mineração, que ocuparam um lugar central na agenda com executivos da Glencore, Newmont, CGC e Southern Energy LNG. Nessa vereda também se posicionaram Alejandro e Bettina Bulgheroni, que "estiveram na primeira fila e por momentos pareceram os anfitriões".

Do outro lado, os perdedores. Gustavo Weiss, presidente da Câmara Argentina da Construção (Camarco), foi explícito: "O empresariado concorda que a macro tem que estar ordenada. Dito isso, quando falamos da micro, tenho certas diferenças com o governo". Weiss lembrou que a construção caiu cerca de 25% desde 2023 e que o setor perdeu cerca de 120.000 empregos diretos. Seu alerta foi ainda mais contundente: "E se isso continuar assim, voltamos ao pêndulo. Acho que o risco K existe se não prestarmos atenção. As pessoas votam com o bolso".

Martín Rappallini, da UIA, foi outro que mostrou seu descontentamento. Segundo o La Politica Online, durante o discurso de Milei, "alguns empresários escolheram diretamente o bar do Alvear em vez de ouvi-lo no salão", e entre eles estava Rappallini, que também trocou comentários e risadas com Weiss quando o vice-ministro José Luis Daza defendeu a sustentabilidade do programa.

A preocupação com a microeconomia e o risco político

O mal-estar não se limita aos empresários. A marcha da CGT, CTA e organizações sociais ao Ministério da Economia, realizada no mesmo 20 de agosto contra o endividamento das famílias, colocou na agenda pública um problema que o governo minimiza. Segundo dados do BCRA, a inadimplência das famílias passou de 2,5% em outubro de 2024 para 12,7% em junho de 2026, e são mais de 20 milhões os argentinos endividados.

A consultora Equilibra informou que "a renda disponível registrada de 14,5 milhões de pessoas caiu 0,5% mensal e 6,9% anual em junho", situando-se 16,9% abaixo da média de janeiro a setembro de 2023. A queda concentrou-se nos assalariados do setor privado.

Nesse contexto, a declaração da senadora Patricia Bullrich pedindo "mais velocidade nos resultados para que a mudança seja sentida na vida cotidiana" — depois editada nas redes sociais — foi interpretada como um sinal das tensões internas do governo.

O economista Diego Coatz destacou que "neste ano já fecharam suas portas 1.400 empresas industriais" e que se prevê que em todo 2026 o número chegue a 3.000. O problema, alertou, é que "a taxa de desaparecimento não é compensada pela taxa de criação de novas empresas".

Para muitos analistas, o temor já não é apenas econômico, mas político: que a profundidade e a duração do ajuste acabem "fabricando as condições políticas para a reversão do próprio programa que pretendem consolidar".