A viagem de Javier Milei ao Brasil em 25 de julho de 2026 para apoiar Flávio Bolsonaro não apenas tensou as relações bilaterais ao máximo, mas também pode estar beneficiando eleitoralmente Lula da Silva, segundo pesquisas recentes. Enquanto o governo argentino se recusa a confirmar o uso de avião oficial, o Brasil convocou seu embaixador.

Uma viagem relâmpago que acendeu o pavio

Em 25 de julho de 2026, o presidente argentino Javier Milei fez uma viagem relâmpago a São Paulo para participar da Convenção Nacional do Partido Liberal, onde se oficializou a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro para as eleições de 4 de outubro. O que parecia um gesto de apoio ideológico tornou-se um incidente diplomático de primeira grandeza quando Milei qualificou o presidente brasileiro, Lula da Silva, como 'presidiário', 'basura calva' e 'ladrão'. Além disso, criticou o juiz do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, por impedi-lo de visitar Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar pelo intento de golpe em 2023.

'Confiamos em você, Flávio, para conseguir parar a lixa socialista', arengou Milei diante dos militantes do PL.

A pergunta incômoda: avião oficial para um ato partidário?

Enquanto a polêmica diplomática ocupava as manchetes, o governo argentino não respondeu a um pedido de acesso à informação pública para confirmar se Milei utilizou um avião oficial para se deslocar ao Brasil. A solicitação, apresentada em 30 de julho, venceu os prazos da Lei 27.775 de Direito à Informação Pública, que exige resposta em um máximo de 15 dias úteis.

O chanceler Pablo Quirno admitiu que a viagem foi 'pessoal e partidária', mas não esclareceu o meio de transporte. Segundo fontes, a comitiva incluiu Karina Milei, secretária-geral da Presidência, e o cônsul-geral em São Paulo, Luis María Kreckler. O silêncio oficial contrasta com as promessas de transparência dos primeiros meses de gestão.

Pesquisas: o apoio de Milei é 'tóxico' para Bolsonaro

A consultora brasileira Quaest publicou um levantamento que mostra o efeito negativo da intervenção de Milei. Realizado entre 31 de julho e 3 de agosto, com 2.004 entrevistas presenciais, o estudo aponta que 34% dos brasileiros considera que o respaldo do presidente argentino aumenta as chances de votar em Lula, enquanto apenas 27% acredita que beneficia Flávio Bolsonaro.

A pesquisa Nexus/BTG Pactual, publicada em 10 de agosto, confirma a polarização: Lula lidera com 40-41% contra 35-37% de Bolsonaro no primeiro turno, e em um eventual segundo turno projeta-se um empate técnico (47% a 44%).

O fator Trump e a disputa pela liderança regional

O conflito não se limita à Argentina. Estados Unidos também escalou tensões com o Brasil ao revogar o visto da embaixadora brasileira em Washington. O analista Ignacio Montes de Oca argumenta que existe uma coordenação entre Milei e Trump para promover a candidatura de Bolsonaro, mas essa estratégia 'desperta um nacionalismo com um rival hemisférico que é os Estados Unidos', fortalecendo Lula.

O presidente brasileiro converteu a pressão externa em um ativo político, apresentando-se como defensor da soberana nacional. O Brasil, principal parceiro comercial da Argentina (responsável por 12,4% das exportações argentinas no primeiro semestre de 2026), mantém uma relação estratégica com a China e os BRICS, o que amplia sua margem de manobra.

Consequências econômicas e comerciais

Especialistas consultados concordam que a crise afetará o Mercosur (bloco econômico do Cone Sul). Tullo Vigevani, especialista em política internacional, alerta que 'o conflito vai dificultar avanços e o fortalecimento do Mercosur'. O Brasil é o principal destino das exportações automotivas e de trigo argentino, concentrando 38% das manufaturas de origem industrial.

Com as eleições a menos de dois meses, a incógnita é se a estratégia de Milei terminará sendo um tiro no pé. As informações foram extraídas de relatórios de imprensa e pesquisas de opinião pública divulgadas recentemente. Fonte: Imago