Em uma jornada diplomática intensa, o enviado especial dos EUA, Jared Kushner, reuniu-se neste domingo no Egito com representantes do Hamas, mediadores e o presidente Al-Sisi para impulsionar o plano de paz de 15 pontos. Enquanto isso, oito países, incluindo Egito, Catar e Turquia, responsabilizaram Israel por obstruir o roteiro.

Um dia crucial para o futuro de Gaza

O enviado especial dos Estados Unidos e genro do presidente Donald Trump, Jared Kushner, protagonizou neste domingo 16 de agosto de 2026 uma intensa jornada diplomática no Egito com o objetivo de destravar o plano de paz americano para a Faixa de Gaza. Segundo informações da agência DW, Kushner reuniu-se no Cairo com uma delegação do Hamas, mediadores egípcios, cataris e turcos, e também com o coordenador especial da ONU para o processo de paz no Oriente Médio, Nickolay Mladenov.

O encontro ocorreu na cidade mediterrânea de El-Alamein, onde Kushner também manteve uma reunião com o presidente egípcio, Abdel Fattah al-Sisi. Segundo o porta-voz presidencial Mohamed El-Shennawy, ambas as partes concordaram sobre a necessidade de que todos os atores “cumpram suas obrigações sob o acordo de cessar-fogo” alcançado para o enclave palestino.

O plano de 15 pontos e a rejeição de Netanyahu

A iniciativa impulsionada por Trump prevê o desarmamento total do Hamas, a retirada gradual das forças israelenses, o envio de uma Força Internacional de Estabilização e a transferência da administração de Gaza para um comitê nacional de tecnocratas palestinos. No entanto, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, rejeitou explicitamente o documento na semana passada, declarando que “Israel rejeita o documento de 15 pontos” e que as forças israelenses não se retirarão até que o Hamas esteja completamente desarmado.

Netanyahu também afirmou que, enquanto permanecer à frente do governo israelense, não permitirá a criação de um Estado palestino nem em Gaza nem na Cisjordânia. Essa postura marca um novo desacordo entre Tel Aviv e Washington, embora o próprio Netanyahu tenha classificado Trump como “seu maior amigo na Casa Branca”.

Oito países responsabilizam Israel

Em paralelo, Egito, Catar e Turquia, juntamente com outros cinco países (Jordânia, Arábia Saudita, Paquistão, Emirados Árabes Unidos e Indonésia), emitiram um comunicado conjunto neste domingo responsabilizando Israel por obstruir os esforços para pôr fim à guerra em Gaza. Os oito países consideraram que a recusa de Netanyahu “coloca em risco a aplicação do roteiro” e dificulta as tentativas de alcançar uma solução duradoura para o conflito.

Os governos signatários pediram ainda que os Estados Unidos mantenham um papel ativo para garantir o cumprimento dos compromissos assumidos e exigiram uma implementação “plena e imediata” do acordo para atender à situação humanitária em Gaza.

Hamas denuncia violações e pede pressão sobre Israel

Uma delegação do Hamas, liderada por seu chefe negociador Jalil al-Haya, manteve conversas no Cairo com o chefe da Inteligência egípcia, o major-general Hasán Rashad, para denunciar “violações diárias” do cessar-fogo por parte de Israel e reivindicar o cumprimento dos acordos de outubro de 2025, alcançados em Sharm el-Sheikh.

O porta-voz do Hamas, Hazem Qassem, declarou que as reuniões fazem parte dos esforços diplomáticos para informar os mediadores sobre as violações israelenses. Por sua vez, o integrante do bureau político do Hamas, Basem Naim, instou os Estados Unidos a exercer pressão sobre o executivo israelense: “Os Estados Unidos deveriam pressionar Netanyahu e seu governo para que se atenham ao roteiro e não obstruam o processo por razões políticas internas e eleitorais”, declarou à AFP.

Contexto: uma guerra que não termina

O cessar-fogo entrou em vigor em 10 de outubro de 2025, mas os ataques israelenses não pararam completamente. Segundo números do Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas, pelo menos 1.262 palestinos morreram em operações israelenses desde então. Os dados são considerados confiáveis pelas Nações Unidas.

Neste mesmo domingo, aviões israelenses atacaram uma residência a oeste de Nuseirat, deixando vários feridos, segundo informou Mahmud Basal, porta-voz da agência de defesa civil de Gaza. A guerra, que começou em 7 de outubro de 2023 após o massacre perpetrado pelo Hamas em território israelense, provocou uma crise humanitária de enormes proporções e mantém em suspense a viabilidade do plano de paz.

O analista político Rosendo Fraga, em análise publicada pelo Infobae, aponta que as divergências entre Trump e Netanyahu respondem a cálculos eleitorais: Netanyahu enfrenta eleições nacionais em 27 de outubro de 2026, enquanto Trump tem eleições legislativas de meio de mandato em 4 de novembro. Para Trump, terminar a guerra contra o Irã, ainda que com um empate, exige um acordo que cesse as hostilidades em Gaza como primeiro passo.

Dados-chave do conflito

  • Início da guerra: 7 de outubro de 2023
  • Cessar-fogo: 10 de outubro de 2025
  • Mortos palestinos desde o cessar-fogo: 1.262 (segundo Ministério da Saúde de Gaza)
  • Plano de paz: 15 pontos impulsionado por Trump
  • Rejeição: Netanyahu o rejeitou em 10 de agosto de 2026
  • Eleições em Israel: 27 de outubro de 2026
  • Eleições nos EUA: 4 de novembro de 2026 (midterms)