Uma descoberta que muda a narrativa nuclear no Oriente Médio
O diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o argentino Rafael Grossi, anunciou nesta terça-feira, 18 de agosto, que a agência da ONU foi notificada pelas novas autoridades sírias sobre a descoberta de várias toneladas de material nuclear em um local que não havia sido declarado pelo antigo governo de Bashar al-Assad. Grossi classificou a decisão de Damasco como uma "decisão corajosa" que abre um novo capítulo na transparência nuclear internacional.
Segundo informações da agência DW e confirmadas pela Agencia Noticias Argentinas, especialistas da AIEA receberam autorização do governo sírio para acessar o local, cuja localização exata não foi revelada. Lá, foi constatada a presença de toneladas de material nuclear que poderiam ter sido utilizadas para fins ilícitos. Após as investigações correspondentes, determinou-se que o material não representa perigo e permanecerá sob custódia de Damasco, sujeito às salvaguardas da AIEA.
Uma visita histórica a Deir Ezzor
Em uma coletiva de imprensa conjunta em Damasco, Grossi confirmou que visitou as instalações nucleares de Deir Ezzor, no nordeste da Síria, tornando-se o primeiro diretor-geral da AIEA a acessar o local em 18 anos. "Visitamos um local onde são armazenadas grandes quantidades de grafite, que também está relacionado com as atividades nucleares passadas em Deir Ezzor", expressou Grossi em suas redes sociais.
O ministro das Relações Exteriores sírio, Asaad al-Shaibani, reivindicou o "direito soberano e legal" da Síria ao uso civil e pacífico da energia nuclear. "A Síria confirma, com base em uma série de avaliações técnicas, que esses materiais não representam uma ameaça e que permanecerão sob salvaguardas nacionais sírias e sujeitos à supervisão da agência", declarou o chanceler.
O legado do reator Al Kibar
O caso remonta a um reator não declarado que a Síria construiu, segundo fontes internacionais, com ajuda norte-coreana em Deir Ezzor, destruído em um ataque aéreo israelense em 2007. Em 2011, a AIEA determinou que Damasco descumpria suas obrigações, uma questão que Bashar al-Assad nunca resolveu.
Em 2024, o então presidente sírio explorou com Grossi formas de cooperação. Não foi até junho de 2025, após a reunião de Grossi com o atual presidente sírio Ahmed al-Sharaa, que a AIEA recebeu acesso imediato e sem restrições a locais relevantes. As amostragens revelaram vestígios de urânio natural processado em uma das instalações relacionadas.
Cooperação e futuro do programa nuclear sírio
Al-Shaibani explicou que sua reunião com Grossi, a segunda em cinco semanas, reflete a transição da relação da nova Síria com a AIEA, de uma fase de resolução de assuntos pendentes para uma verdadeira parceria. O processo de cooperação começou no início de 2025 e incluiu visitas de campo, coleta de amostras ambientais, memorandos de entendimento nos setores de saúde e agricultura, e um mecanismo de financiamento fornecido pela agência.
Grossi destacou que "as atividades nucleares na Síria não estarão mais vinculadas a armas nucleares, mas sim a aplicações em saúde, energia e gestão da água, como deve ser". O diretor-geral da AIEA garantiu que esta terça-feira representa "um dia importante para a segurança e a paz mundiais".
A Síria aguarda o próximo relatório de Grossi à Junta de Governadores, que refletirá os avanços alcançados, e insta os Estados-membros a apoiá-los durante a sessão de setembro por meio de uma resolução que permita superar o caso de descumprimento herdado desde 2011.
Contexto regional e reclamações contra Israel
Em outro contexto, al-Shaibani exigiu a cessação imediata das violações e ataques israelenses contra a Síria, o pleno cumprimento do Acordo de Separação de Forças de 1974 e a retirada completa para as posições anteriores a 8 de dezembro de 2024. O ataque israelense ao aeroporto de Abu al-Duhur foi classificado como uma "flagrante violação da soberania síria" e uma ameaça direta à estabilidade regional.
Esta descoberta representa um avanço significativo na não proliferação nuclear e uma oportunidade histórica para a Síria reintegrar seu papel como membro ativo da comunidade internacional, deixando para trás mais de uma década de descumprimentos e suspeitas sobre seu programa nuclear.