No coração da Cidade do México, o bairro Tabacalera virou um refúgio para milhares de mexicanos deportados pelo governo Trump. Com ruas que lembram Los Angeles, empregos e apoio comunitário, o 'Little LA' oferece uma segunda chance a quem viveu décadas nos EUA e hoje se sente estrangeiro na própria terra.

Um pedaço de Los Angeles na Cidade do México

O bairro Tabacalera, no centro da Cidade do México, ganhou o apelido de 'Little LA' — ou 'Pequena Los Angeles' — não apenas pela estética: amplas avenidas cercadas por palmeiras, cafés pitorescos e cantinas tradicionais, mas também pelo inglês e espanhol que se misturam nas ruas. Porém, o apelido vai além da aparência: nos últimos anos, este pedaço da capital mexicana tornou-se um refúgio para milhares de mexicanos deportados dos Estados Unidos, especialmente aqueles que passaram décadas do outro lado da fronteira e para quem o México agora parece um país estranho.

Com o governo de Donald Trump intensificando sua ofensiva anti-imigração, as deportações para o México aumentaram drasticamente. Desde que assumiu seu segundo mandato em janeiro de 2025, Trump deportou aproximadamente 145.500 mexicanos, segundo dados citados pelo jornal britânico The Guardian.

A história de Christopher Gil Ortíz

Um deles é Christopher Gil Ortíz, que foi detido em junho de 2026 quando se dirigia ao trabalho em Los Angeles. Agentes do ICE (Serviço de Imigração e Controle de Alfândega dos EUA) o algemaram e o levaram a um centro de detenção. Após meses vivendo com medo constante como indocumentado, Ortíz sentiu alívio ao ser detido: 'Naquele momento pensei: bom, é isso, vou voltar. Como se um peso tivesse sido tirado das minhas costas', relembrou.

Depois de mais de 30 anos desde que deixou o México quando criança, Ortíz foi mandado de volta, deixando para trás sua esposa e dois filhos pequenos. Deportado para Tulum, foi para Cancún, onde foi roubado — perdeu todas as suas pertences. Finalmente chegou à Cidade do México, onde tinha família. 'Eu estava nervoso. Embora eu tenha nascido aqui, tenho lembranças muito vagas da cidade', confessou.

New Comienzos: um laboratório de reintegração

Sua irmã lhe enviou um vídeo do TikTok da organização New Comienzos (Novos Começos), sediada no Little LA, dedicada a ajudar os retornados a se reintegrarem. Ao ver o vídeo, Ortíz decidiu visitar o bairro. 'Ver as palmeiras faz você sentir como se estivesse em Los Angeles', disse, grato à organização. 'Tem muita gente passando pelo que estou passando, e tenho certeza de que virão mais'.

O fundador do New Comienzos, Israel Concha, prepara-se para uma onda ainda maior: 'O clima nos EUA agora é de crise humanitária e pânico. As pessoas já nem querem levar seus filhos para a escola. Provavelmente veremos deportações em massa nos próximos meses', alertou.

O difícil caminho do próprio fundador

Concha sabe bem o que é perder tudo. Em 2012, vivia no Texas com a esposa grávida e tinha um negócio de transporte executivo de sucesso, após 30 anos nos EUA. 'Eu queria alcançar o sonho americano e acho que consegui'. Mas uma multa por excesso de velocidade o levou à detenção e, após dois anos de batalha legal, foi deportado em 2014. No seu primeiro dia no México, foi sequestrado por uma gangue criminosa que trabalhava com a polícia local. 'Foi assim que fui recebido no meu país natal', relatou.

Após ser espancado brutalmente, Concha escapou para a Cidade do México, onde encontrou trabalho em um call center bilíngue, um dos vários que começavam a surgir em Tabacalera, atraindo jovens retornados com inglês fluente. Menos de um ano depois, fundou o New Comienzos. 'As pessoas não precisavam apenas de trabalho; muitas precisavam de apoio emocional porque acabavam de perder tudo após uma deportação', explicou.

A organização oferece apoio jurídico, certificação e aulas gratuitas de inglês, além de mentoria para os recém-chegados. O Little LA segue sendo seu centro de operações. 'Um laboratório de reintegração comunitária', define Concha.

O caso de Sergio Aaron Pérez

Sergio Aaron Pérez, de 36 anos, veste uma camiseta do Los Angeles Lakers e um boné de beisebol; seu rosto e braços são cobertos de tatuagens. Viveu mais de 30 anos nos EUA e foi deportado em 2011 pelo que ele chama de 'coisas erradas'. No Little LA encontrou trabalho em call centers: 'Se você fala inglês, tem muito dinheiro. Amo minha cidade. Tem muita comunidade', disse.

O futuro de Ortíz

Ortíz, por sua vez, não quer trabalhar em um call center. Já se candidatou a um emprego em uma fábrica de vidro, trabalho que fazia nos EUA. Seu próximo objetivo: trazer a esposa e os filhos para o México. 'Meus filhos concordam', disse, e com uma referência ao costume local — onde sucos e refrigerantes são tradicionalmente servidos em saquinhos plásticos — acrescentou: 'Minha filha me disse que já está praticando tomar refrigerante de um saquinho plástico'.

O que é o ICE?

O ICE (Immigration and Customs Enforcement) é a agência federal dos Estados Unidos responsável pela aplicação das leis de imigração e controle alfandegário. Criado em 2003, o órgão é conhecido por realizar operações de detenção e deportação de imigrantes em situação irregular no território americano. Para os deportados, a sigla se tornou sinônimo de medo e separação familiar.