Uma morte que abala a Síria
A morte de Mohammad Ghamira (29), pai de dois filhos e ex-voluntário dos Capacetes Brancos, desencadeou uma onda de protestos na Síria. Ghamira foi detido na semana passada na província costeira de Latakia sob acusação de roubo. Ele saiu da delegacia em estado crítico e faleceu no domingo no hospital devido a 'complicações de hemorragias cerebrais e gastrointestinais' causadas por espancamento durante sua detenção, conforme informou Raed al-Saleh, ex-diretor dos Capacetes Brancos e atual ministro de Gestão de Emergências e Desastres.
A divulgação de duas fotografias — uma de Ghamira sorridente e saudável antes da detenção, e outra dele inconsciente em uma cama de hospital com hematomas — viralizou e acendeu a indignação em todo o país.
O aviso ignorado
Os pais de Ghamira haviam alertado o chefe da delegacia que seu filho sofria de hemofilia, uma doença que impede a coagulação normal do sangue, e pediram que ele não fosse agredido. Mesmo assim, ele foi espancado sob custódia, confirmou seu tio Issam Ghamira à mídia estatal síria.
Promessas de justiça
O Ministério do Interior formou um comitê de investigação e detve sete membros do ministério para interrogatório. O ministro do Interior, Anas Khattab, prometeu uma 'punição justa' ao final da investigação. O porta-voz Nour al-Din al-Baba garantiu que o comitê se reuniu com a família na terça-feira e informou sobre os avanços.
Protestos em Aleppo e Damasco
Uma multidão se reuniu em Aleppo exigindo responsabilização dos supostos torturadores. Os manifestantes carregavam cartazes com frases como: 'Não repitam a mesma opressão contra a qual nos rebelamos'. Também foram anunciados protestos em frente ao parlamento em Damasco para terça-feira.
A sombra de Assad
A raiva dos sírios se explica pelo contexto: o regime de Bashar al-Assad usou a detenção em massa e a tortura de forma sistemática para controlar a população, prática que se intensificou quando os protestos eclodiram em 2011. O atual governo, composto em sua maioria por ex-membros do grupo rebelde islamista Hay'at Tahrir al-Sham (HTS), derrubou Assad em uma ofensiva relâmpago em dezembro de 2024 e prometeu acabar com as atrocidades. No entanto, organizações de direitos humanos denunciam que a tortura continua nos centros de detenção sírios.
Syrians for Truth and Justice (STJ) documentou 14 casos de pessoas torturadas ou mortas sob custódia entre junho de 2025 e junho de 2026, e destacou que 'a mudança de autoridade política não foi acompanhada pelo desmantelamento efetivo das estruturas e práticas que permitem a tortura'. Os testemunhos coletados mostram espancamentos severos, choques elétricos, humilhações, ameaças e privação de necessidades básicas, frequentemente com motivações de discriminação sectária.
A organização atribui a persistência da tortura à falta de supervisão e responsabilização das milícias e membros das forças de segurança, em vez de uma política centralizada de tortura. Isso contrasta com o regime de Assad, onde a tortura era política de Estado.
Reivindicações que não cessam
Grupos da sociedade civil convocaram protestos e exigiram justiça. Diab Serieh, da Associação de Detidos e Desaparecidos da Prisão de Sednaya, declarou: 'Muitos sacrificaram tudo pela liberdade e dignidade, para fechar o capítulo sombrio da história de seu país e acabar com essas práticas para sempre. Justiça para [Ghamira] e para todos os desaparecidos à força e sob tortura continua sendo uma demanda inabalável que nunca abandonaremos'.
O relatório da STJ coincide com as conclusões da comissão independente de investigação da ONU de março, que documentou torturas e abusos em 30 centros de detenção oficiais e provisórios na Síria durante 2025.