De serviço leal ao abandono: o pesadelo após o vazamento
Um ex-membro das forças especiais da polícia nacional afegã, identificado apenas como Hamid, serviu ao lado dos militares britânicos e recebeu um certificado de honra assinado por um alto oficial do Reino Unido, elogiando sua 'dedicação, serviço incomparável e liderança'. No entanto, um vazamento acidental de dados do Ministério da Defesa britânico (MoD) em 2022 expôs sua identidade ao Talibã. Hoje, ele vive sob ameaças de morte e teve seu pedido de reassentamento negado pelo governo britânico, encontrando-se em situação desesperadora.
De acordo com o jornal The Guardian, as informações detalhadas de Hamid estavam incluídas em um grande vazamento de dados ocorrido em fevereiro de 2022, causado por um oficial do MoD. O incidente envolveu informações de 18.700 afegãos que trabalharam com o governo britânico ou para ele, incluindo números de telefone e alguns endereços. O vazamento foi descrito como 'uma lista de morte de 33 mil pessoas' que poderia cair nas mãos do Talibã, provocando pânico dentro do governo britânico e levando à criação de um plano secreto de reassentamento.
Ameaças do Talibã e um pedido de ajuda desesperado
Hamid compartilhou com o The Guardian um vídeo em que um homem segura um rifle, sentado sob a bandeira do Talibã, ameaçando caçá-lo e mencionando seus movimentos anteriores. Após o vazamento, sua vida mudou completamente: 'Não posso sair de casa com segurança para trabalhar; vivo com medo todos os dias de ser reconhecido ou alvo', disse. Por estar escondido, perdeu sua renda estável e sua família depende de pequenos trabalhos que sua esposa consegue fazer em casa.
Apesar de ter enviado todos os documentos que comprovam seu serviço, o Ministério da Defesa britânico rejeitou novamente seu pedido de reassentamento em 31 de julho, sob a alegação de que ele não forneceu evidências de que 'trabalhou lado a lado, cooperou ou apoiou diretamente departamentos do governo britânico'. Ele tem 28 dias para recorrer. Revoltado, Hamid desabafou: 'Muitos dos meus antigos colegas, do mesmo departamento e com as mesmas funções, já foram reassentados no Reino Unido através do programa. Por que sou sempre rejeitado? Será que preciso ser capturado, torturado ou morto pelo Talibã para que meu serviço e meu perigo sejam reconhecidos?'
Contexto: programa de reassentamento do Reino Unido e o vazamento de dados
O governo britânico lançou o programa 'Política de Relocação e Assistência ao Afeganistão' (Arap) em 1º de abril de 2021, que encerrou novas inscrições em 1º de julho de 2025, embora os processos existentes continuem. O vazamento ocorreu em fevereiro de 2022, quando um oficial do MoD, que deveria enviar uma lista com 150 nomes, acabou enviando todo o banco de dados de candidatos. Em agosto de 2023, o governo britânico obteve uma rara 'super-injunção' proibindo a mídia de divulgar qualquer informação sobre o caso, que só foi suspensa pela Alta Corte em julho de 2025.
Para lidar com o risco, o Reino Unido lançou secretamente, em dezembro de 2023, o programa 'Rota de Resposta ao Afeganistão' (ARR), destinado a reassentar pessoas que não se enquadravam nos critérios do Arap, mas estavam em risco. Segundo dados do MoD, até julho de 2025, o Reino Unido reassentou 35.245 afegãos por meio de vários programas, dos quais 16.156 eram pessoas afetadas pelo vazamento. Dados mais recentes indicam que, desde que o Talibã assumiu o poder, o Reino Unido reassentou quase 39.000 afegãos.
Resposta do governo e críticas
Um porta-voz do Ministério da Defesa britânico, respondendo ao caso de Hamid, afirmou: 'Cada pedido é avaliado individualmente com base nas evidências, incluindo como a pessoa apoiou a missão do Reino Unido no Afeganistão e se atende aos critérios públicos de elegibilidade.' No entanto, críticos apontam inconsistências no tratamento dado pelo governo britânico aos seus antigos parceiros. O então secretário de Defesa, John Healey, chegou a afirmar que os dados vazados incluíam alguns 'candidatos especulativos', mas Hamid possui certificado oficial, o que torna sua situação claramente diferente.
O custo total do vazamento deve ultrapassar £850 milhões, enquanto o custo total estimado de todos os programas de reassentamento chega a £5,5 bilhões a £6 bilhões. Organizações de direitos humanos denunciam o governo britânico por não cumprir suas promessas com aqueles que serviram a seus interesses, e o caso de Hamid é apenas a ponta do iceberg.
“Não estou pedindo tratamento especial; só quero uma revisão justa com base nas evidências que apresentei.” — Hamid