A União Europeia enfrenta um desafio crítico: sua capacidade de responder a uma invasão estrangeira até 2030 continua em dúvida, segundo o mais recente relatório do Tribunal de Contas Europeu (ECA), publicado na quinta-feira, 3 de setembro de 2026. O documento, liderado pelo membro do ECA Marek Opioła, analisa a fundo a preparação militar do bloco e expõe fraquezas estruturais que persistem apesar dos esforços recentes.
Progressos inegáveis, mas insuficientes
O relatório reconhece que a UE está melhor preparada do que em 2019, ano da revisão anterior, e do que antes da invasão russa da Ucrânia em 2022. No entanto, os avanços não são suficientes para garantir uma defesa autônoma e eficaz. Os gastos com defesa dos Estados-membros aumentaram 79% entre 2020 e 2025, um dado animador, mas que não se traduz em uma capacidade militar integrada e eficiente.
Dependência crítica dos EUA
Uma das descobertas mais contundentes é a dependência contínua dos Estados Unidos. Entre fevereiro de 2022 e junho de 2023, 78% das aquisições de defesa dos governos da UE foram feitas fora do bloco, e os EUA representaram 63% dessas compras, segundo um estudo citado pelo ECA. Essa situação se explica pela necessidade urgente de capacidades militares rápidas após a invasão russa da Ucrânia, mas deixa a Europa em posição vulnerável se Washington decidir priorizar seus próprios interesses.
Fragmentação e gargalos
O relatório identifica sistemas de defesa nacionais fragmentados, gargalos industriais e cooperação insuficiente entre os governos da UE. Essa falta de integração gera risco de duplicação de gastos e lacunas nas capacidades militares, o que enfraquece a preparação coletiva. Um exemplo claro é o projeto fracassado de França e Alemanha para um avião de combate conjunto de €100 bilhões, abandonado por disputas sobre liderança e controle, embora esse caso não seja mencionado no relatório.
Promessa de munições à Ucrânia: cumprida com atraso
A UE cumpriu sua promessa de entregar 1 milhão de projéteis de artilharia à Ucrânia em novembro de 2024, mas com 8 meses de atraso. Esse atraso reflete as limitações industriais e logísticas do bloco, que não conseguiu escalar sua produção de munições no ritmo necessário.
A tensão entre 'Buy European' e as necessidades urgentes
A política 'Buy European' busca reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros, mas esbarra na realidade de que a Europa não consegue produzir certos suprimentos críticos a tempo. O relatório aponta que flexibilidades são permitidas quando a Europa não consegue cobrir as necessidades, mas adverte que essas exceções devem vir acompanhadas de um plano para desenvolver capacidades próprias no longo prazo.
Ucrânia pede exceção para comprar mísseis Patriot
Nesse contexto, a Ucrânia solicitou uma isenção das regras 'Buy European' para comprar interceptadores Patriot de fabricação americana com o empréstimo de apoio de €90 bilhões da UE. Na quarta-feira, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, confirmou que a Ucrânia pediu financiamento de 'vários bilhões de euros' para defesa aérea, incluindo sistemas Patriot. Um porta-voz da Comissão indicou que essa solicitação exigiria uma 'derrogação' das regras que exigem conteúdo majoritariamente europeu, e que a decisão final cabe aos Estados-membros.
Recomendações do auditor
O ECA recomenda aumentar drasticamente os gastos com defesa e expandir rapidamente a produção de munições. Embora comprar de fora possa fazer sentido para necessidades urgentes, o relatório ressalta que a Europa deve ter um plano claro para desenvolver essa capacidade crítica no longo prazo dentro da UE. A segurança do continente não pode depender indefinidamente de terceiros.
O relatório chega em um momento de crescente tensão geopolítica e coloca um desafio existencial para a UE: está disposta a arcar com o custo de sua própria defesa? A resposta, segundo os auditores, ainda não é um sim rotundo.