A cena era quase um ritual: abrir o porta-malas de um 0km e se deparar com um estepe idêntico aos outros quatro pneus, o macaco e a chave de roda. Desde alguns anos, esse cenário está desaparecendo. Cada vez mais fabricantes optam por eliminar o estepe e entregar, no lugar, uma pequena bolsa com um compressor de 12 volts e uma garrafa de selante, ou simplesmente um fundo plano ocupado por cabos e baterias.
Esta tendência foi destaque no site Elonce e gerou polêmica entre os consumidores. A decisão atende a uma lógica de mercado global, mas colide com a realidade das estradas brasileiras e sul-americanas, onde um simples corte lateral no pneu pode transformar um imprevisto menor em uma espera desesperada por um guincho.
Por que as montadoras abandonaram o estepe?
O desaparecimento do estepe não é um capricho: por trás dele está uma combinação de eficiência energética, redução de custos e eletrificação. Um conjunto completo (estepe, macaco e chave de roda) pode pesar entre 15 e 25 quilos. Eliminar esse peso morto reduz o consumo de combustível e as emissões de carbono, um ponto crítico para a homologação de veículos sob normas ambientais internacionais.
Além disso, nos carros elétricos e híbridos plug-in, as baterias ficam sob o piso e na traseira, eliminando fisicamente o espaço onde o estepe era guardado. Ao removê-lo, as marcas podem oferecer entre 60 e 80 litros adicionais de capacidade de porta-malas, embora esse espaço extra às vezes não seja totalmente aproveitável.
O fator econômico também é decisivo: não fornecer o quinto pneu nem a ferramentaria representa uma economia milionária para as montadoras quando multiplicada por milhões de unidades.
O fator chinês: carros pensados para autopistas perfeitas
Embora as marcas europeias e norte-americanas tenham sido as pioneiras em substituir o estepe convencional por um estepe temporário tipo "biscoito", os fabricantes chineses deram um passo a mais: eliminaram por completo qualquer elemento físico de reposição. Marcas como BYD, Chery, Haval, BAIC ou MG projetam seus veículos pensando no gigante mercado doméstico, onde a infraestrutura viária é de primeiro nível e a assistência rápida funciona de forma hiperconectada.
Nesse ecossistema urbano, trocar um pneu à beira da estrada se torna obsoleto diante do uso de kits de vedação ou do chamado ao serviço de socorro imediato. Mesmo que ao mercado brasileiro cheguem alguns modelos com estepe, a maioria dos veículos de origem chinesa é vendida exclusivamente com o kit antipicada.
O choque com a realidade regional
A dificuldade é evidente: na América Latina, as grandes distâncias entre cidades, trechos sem sinal de celular e um asfalto irregular fazem com que a falta de um estepe se transforme em um risco real. Um kit de vedação serve para reparar um furo causado por um prego na banda de rodagem, mas não funciona se o pneu sofrer um corte lateral ou estourar depois de passar por um buraco fundo. Nesses casos, o único recurso é o guincho.
Diante dessa realidade, muitos motoristas optam por comprar um estepe por conta própria, que acaba ocupando de forma solta e improvisada o espaço de carga que os engenheiros tentaram otimizar.
Resumindo: a falta de estepe é uma tendência que veio para ficar, mas enquanto as estradas não estiverem à altura, a decisão das montadoras continuará causando muitas dores de cabeça aos motoristas brasileiros.