Um governo em busca de oxigênio político
Em 14 de agosto de 2026, o oficialismo argentino encontrava-se em pleno modo campanha. Após alguns reveses no Senado e com um Índice de Preços ao Consumidor (IPC) de julho que freou a desaceleração econômica, a Casa Rosada (sede do governo nacional, equivalente ao Palácio do Planalto) acelerou a máquina para reorganizar alianças e mostrar gestão. A estratégia tem duas bases: fechar o acordo com o PRO (Propuesta Republicana, um partido de centro-direita fundado por Mauricio Macri) e viajar ao interior do país para inaugurar obras com governadores dialoguistas.
O dado da inflação de 2,1% mensal (19,3% acumulado anual e 33,8% interanual) foi o pano de fundo de um dia em que a política ganhou o pulso da economia. Enquanto o ministro da Economia, Luis Caputo, defendia a gestão e anunciava novas medidas financeiras, o chefe de Gabinete, Diego Santilli, embarcava rumo ao norte argentino.
Os números que marcam a agenda
- Inflação de julho: 2,1% mensal / 19,3% anual / 33,8% interanual
- Cesta Básica Total: $1.564.716 para uma família padrão
- Créditos em dólares: flexibilização para todas as empresas
- Obra Albigasta: $99.769 milhões, financiada pelo BID
Santilli e Caputo com os governadores do Norte
O chefe de Gabinete e o ministro da Economia viajaram a Catamarca (uma das províncias do norte argentino) para se reunir com os governadores Raúl Jalil (Catamarca) e Elías Suárez (Santiago del Estero). O objetivo formal foi colocar em marcha a Rede de Aquedutos e Usinas de Potabilização de Água Albigasta, uma obra estratégica que beneficiará mais de 35.000 habitantes de ambas as províncias.
O investimento total é de $99.769 milhões (pesos argentinos), financiada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). O projeto inclui a construção de duas usinas de tratamento de água e 50 quilômetros de aquedutos, com um prazo de execução de 36 meses. Além disso, foram assinados acordos para delegar à Catamarca a gestão de trechos de rodovias nacionais, uma medida que já foi aplicada em Santa Fe e San Juan.
«Equilíbrio fiscal e infraestrutura não são conceitos opostos. A Argentina precisa de infraestrutura para crescer, mas temos que fazê-la de maneira sustentável», afirmou Santilli.
O tabuleiro político: LLA, PRO e o peronismo
Enquanto Santilli e Caputo percorriam o norte, Karina Milei (irmã do presidente e secretária geral da Presidência) inaugurava a nova sede partidária da La Libertad Avanza (LLA, o partido libertário do presidente) na Avenida Caseros 514, San Telmo, um bairro histórico de Buenos Aires. Ela afirmou que o partido continuará «trabalhando para melhorar cada lugar de cada argentino». O ato contou com a presença de Sebastián Pareja e Martín Menem.
Em paralelo, a reunião de quinta-feira entre representantes do PRO e do LLA na Casa Rosada continua rendendo assunto. Fernando De Andreis, deputado do PRO, apoiou a continuidade de Jorge Macri à frente do governo da Cidade Autônoma de Buenos Aires (CABA) e uma eventual candidatura de Santilli na província de Buenos Aires: «Sempre vou querer que encabeçem os do PRO».
Do outro lado, o peronismo (o principal movimento político argentino, de viés popular) também se move. A cúpula do Partido Justicialista (PJ) no Hotel Emperador, com Kicillof, Massa e Máximo Kirchner, concordou em defender as PASO (Primárias Abertas, Simultâneas e Obrigatórias, um sistema único de pré-candidaturas na Argentina) frente à tentativa do governo de eliminá-las. O peronismo precisa de 36 votos no Senado e 129 na Câmara dos Deputados para bloquear a reforma.
Caputo, entre a inadimplência e os créditos em dólares
O ministro da Economia também foi protagonista por suas definições sobre a economia real. Em coletiva de imprensa, descartou intervir para aliviar a inadimplência das famílias, que se encontra em níveis máximos históricos. «É um tema entre privados», sentenciou.
No entanto, anunciou uma medida que busca ampliar o crédito: a flexibilização parcial dos empréstimos em dólares para empresas. Os bancos poderão emprestar a todas as pessoas jurídicas, não apenas às que geram divisas, com um teto de 15% dos depósitos em moeda estrangeira de cada entidade. A medida foi questionada por ex-funcionários macristas como Hernán Lacunza e Guido Sandleris, que advertiram sobre os riscos de repetir experiências do passado.
A causa da mansão de Pilar e o caso Insaurralde
No âmbito judicial, a Câmara Federal de Cassação Penal resolveu que a causa pela mansão de Pilar (um bairro de luxo na Grande Buenos Aires) vinculada à AFA (Associação do Futebol Argentino) volte ao Juizado Federal de Campana, a cargo de Adrián González Charvay. A decisão foi a contramão do que dispôs a Câmara Penal Econômico.
Por outro lado, o promotor Sergio Mola opôs-se ao pedido de Jesica Cirio de anular como prova os vídeos em que ela aparece com sacos de dólares no provador da casa de Martín Insaurralde em San Vicente. A causa investiga enriquecimento ilícito e lavagem de dinheiro pelo caso «Yategate» (um escândalo de corrupção envolvendo iates e dinheiro não declarado).
O que vem por aí
Com os olhos postos nas eleições de 2027, o governo busca consolidar uma ampla aliança com o PRO e setores do radicalismo (a União Cívica Radical). A disputa pelas PASO, a reforma da Carta Orgânica do Banco Central (BCRA) e a situação social serão os eixos das próximas semanas. O oficialismo precisa demonstrar que pode governar e, ao mesmo tempo, construir uma base eleitoral sólida para o futuro.