Após dez dias de silêncio, o presidente Javier Milei liderou o ato pelos 176 anos da morte do General San Martín, em Buenos Aires. Com tom eleitoral, criticou os 'inimigos da liberdade' e selou gestos de aproximação com Jorge Macri e o PRO, em meio a negociações para 2027. Entenda o contexto político argentino.

O presidente Javier Milei voltou à cena pública nesta segunda-feira, 17 de agosto de 2026, após dez dias de ausência, para liderar o ato central em memória do 176º aniversário da Passagem à Imortalidade do General José de San Martín, no Monumento ao Libertador, na Praça San Martín, no bairro de Retiro, em Buenos Aires. A cerimônia, que durou pouco menos de meia hora, teve claro tom eleitoral e foi marcada por gestos de aproximação entre o governo e o partido PRO.

Discurso com guinadas eleitorais e críticas ao kirchnerismo

Em seu discurso, de cerca de dez minutos, Milei usou a figura do herói nacional para justificar sua gestão e atacou a oposição. “Há alguns que querem voltar ao passado em que vivíamos”, disse, em clara referência ao kirchnerismo. “Se a maioria se empobreceu com o modelo anterior, uma minoria se beneficiou enormemente”, acrescentou.

O presidente também falou em “inimigos internos e externos” da liberdade. Segundo fontes próximas a Karina Milei, os “inimigos internos” seriam os “Kukas” (kirchneristas) e os “externos” os “Lula da vida”. Outro porta-voz oficialista precisou que a visão de “inimigos da liberdade” inclui “jornalistas, políticos kirchneristas e empresários”.

Milei conectou o legado de San Martín com sua gestão: “A gesta sanmartiniana é fonte de inspiração para todo o meu governo”, e destacou que “os inimigos da liberdade existem e não descansam”. Também defendeu o rearmamento das forças de segurança e das Forças Armadas.

Autocrítica parcial e menção à economia

Em uma virada inesperada, o mandatário reconheceu as dificuldades do plano econômico: “Se a liberdade não mostra seus frutos, que são o bem-estar e a prosperidade econômica, a cidadania esquece seu valor”. A frase foi interpretada como uma autocrítica parcial, enquanto o ministro da Economia, Luis Caputo, ouvia de perto.

Abraço com Jorge Macri e gestos para o PRO

Um dos momentos mais significativos foi o efusivo abraço entre Milei e o chefe de governo da cidade de Buenos Aires, Jorge Macri, no tapete vermelho antes do ato. O gesto ocorre em meio às negociações entre o partido La Libertad Avanza (LLA) e o PRO, que começaram na semana passada com a ligação de Karina Milei a Mauricio Macri e a reunião de quinta-feira na Casa Rosada entre delegados dos dois espaços.

O gabinete nacional esteve presente em peso, junto com ministros da cidade. Destacaram-se Federico Sturzenegger, Patricia Bullrich, Sandra Pettovello, Pablo Quirno, Carlos Presti, Martín Menem e Diego Santilli, entre outros. Apenas o assessor presidencial Santiago Caputo faltou.

A vice-presidente Victoria Villarruel, inimiga declarada de Milei, enviou uma coroa de flores ao monumento, o que gerou ironias entre os funcionários. Villarruel havia criticado o governo em uma postagem anterior pela falta de trabalho.

Contexto político: negociação com o PRO e eleições 2027

O ato ocorre em um momento-chave do cenário eleitoral. O governo busca eliminar as eleições primárias (PASO) e o PRO negocia condições para um acordo. Segundo fontes, a reunião de quinta-feira foi um “bom primeiro passo” e será repetida quinzenalmente. Jorge Macri já manifestou intenção de concorrer à reeleição em Buenos Aires, enquanto no PRO há expectativas de um acordo eleitoral que alcance os distritos que governam.

Enquanto isso, o peronismo se reorganiza: Kicillof, Massa e Máximo Kirchner se reuniram na terça-feira passada e preparam uma nova cúpula para 19 de agosto. Pesquisas mostram alto descontentamento social: segundo a UdeSA, 61% desaprovam a gestão de Milei e 57% acreditam que o país piorou.

Agenda presidencial após o ato

Milei retomará a atividade pública com agenda cheia: na quinta-feira participará do Council of the Americas, em 15 de setembro apresentará o Orçamento 2027 e na terça-feira se reunirá com a Igreja para coordenar a visita do Papa Leão XIV. Além disso, o governo prepara o envio de ajuda humanitária à Colômbia, afetada por um terremoto.

O homenagem a San Martín, em síntese, foi o palco escolhido por Milei para voltar à arena política com mensagem de unidade libertária e gestos a um aliado-chave para 2027.

Fonte: imago.com.ar