O peronismo não para. Depois da histórica cúpula que reuniu na semana passada no Hotel Emperador Axel Kicillof, Sergio Massa, Máximo Kirchner e os principais líderes do Partido Justicialista (PJ), a estratégia agora é ampliar a base territorial. Segundo informou o site La Política Online, os três pré-candidatos do espaço — Kicillof, Massa e o governador de Santiago del Estero, Gerardo Zamora — vão visitar os chamados “governadores do meio”: aqueles mandatários peronistas que mantêm diálogo com o governo de Javier Milei e que ainda não definiram seu alinhamento.
A ideia, acordada na cúpula, é que esses três líderes percorram as províncias acompanhados por outros referentes do espaço, como testemunhas de que as conversas fazem parte de uma construção coletiva e não de uma candidatura individual. O objetivo é tentar possíveis acordos para a eleição presidencial de 2027, em um cenário onde o oficialismo já negocia com o PRO (partido de Mauricio Macri) e o peronismo busca evitar a fragmentação.
A cúpula do Hotel Emperador e o pacto pelas PASO
O encontro da última quinta-feira (13 de agosto) foi impulsionado principalmente por Sergio Massa e contou com a presença dos governadores Gerardo Zamora, Sergio Ziliotto, Gustavo Melella, Ricardo Quintela e Gildo Insfrán, além dos chefes de bloco José Mayans (senador) e Germán Martínez (deputado). Ali foi formado o chamado “Grupo dos 10”, que tem como prioridade imediata a defesa das PASO (Primárias Abertas, Simultâneas e Obrigatórias).
As PASO são um sistema eleitoral argentino criado em 2009, no qual todos os partidos realizam eleições primárias abertas a todos os cidadãos, mesmo aqueles que não são filiados, para definir seus candidatos para as eleições gerais. O peronismo considera as PASO essenciais para resolver suas disputas internas e apresentar um candidato de unidade. O governo, por outro lado, defende sua eliminação, com o apoio de alguns governadores peronistas “dialoguistas”. Por isso, o Grupo dos 10 já enviou um recado a esses mandatários: se não apoiarem a defesa das primárias, podem enfrentar listas opositoras em suas províncias.
Kicillof não freia sua própria construção
Enquanto avança o diálogo unificado, o governador da província de Buenos Aires (a mais populosa do país, com cerca de 17 milhões de habitantes) mantém sua estratégia de expansão territorial. Nesta quarta-feira (19 de agosto), ele viajará para Chaco, onde participará do ato de normalização da CGT Regional (a central sindical argentina, historicamente ligada ao peronismo) e apresentará seu livro De Smith a Keynes na Universidade Nacional do Nordeste (UNNE). A atividade sindical busca fortalecer vínculos com setores-chave e ampliar a presença do Movimento Direito ao Futuro (MDF) em outras províncias.
Em paralelo, o MDF continua com os plenários seccionais na província de Buenos Aires. No sábado (15 de agosto), foi realizado um em Ramallo, com a participação dos prefeitos Mario Secco (Ensenada) e Julio Alak (La Plata), que afirmou que “o único candidato do peronismo deve ser Kicillof” e criticou a direção do PJ por “não compreender as pessoas”. O próximo plenário será na Terceira Seção Eleitoral, e espera-se completar todas as seções antes de setembro, para depois realizar um encontro federal com líderes de diferentes províncias.
A disputa interna peronista: entre a unidade e as ambições pessoais
A cúpula do Hotel Emperador foi vista como um primeiro passo para recompor o diálogo, mas as diferenças internas seguem latentes. Segundo o jornal Ámbito, o entorno de Massa desmente que o ex-ministro da Economia vá se candidatar a presidente ou governador, e garante que “ainda não chegou seu tempo”. Enquanto isso, circula o nome de Natalia de la Sota, filha do ex-governador de Córdoba, como possível candidata a vice-presidente em uma chapa com Kicillof, embora alguns considerem isso “uma operação para desvalorizá-lo”.
O analista Luis Majul sustenta no jornal La Nación que a campanha já começou e que tanto o oficialismo quanto a oposição estão em plena operação política. No peronismo, a disputa entre Kicillof, Massa e o kirchnerismo duro segue aberta, mas a defesa das PASO se tornou o ponto de contato inicial.
O que o peronismo busca com os “governadores do meio”?
Os governadores peronistas que mantêm diálogo com a Casa Rosada (sede do governo argentino) — como Osvaldo Jaldo (Tucumán) e Raúl Jalil (Catamarca) — são o alvo dessa nova ofensiva. O governador de La Rioja, Ricardo Quintela, já adiantou que irá conversar com eles para aproximá-los do PJ nacional. A estratégia é dupla: por um lado, somar adesões à defesa das PASO; por outro, construir uma estrutura eleitoral que contemple os interesses provinciais.
Na cúpula, vários presentes reclamaram que não se “exportem” para as províncias as disputas internas do peronismo bonaerense. “Nos mandam um ministro da província que se reúne com alguns prefeitos e atrás saltam os do La Cámpora ou do Sergio e se arma uma confusão”, disse um deputado do interior. O pedido foi anotado, mas o tom geral foi bom, impulsionado pela vitória no Senado contra a lei de estrangeirização de terras e por pesquisas que mostram uma possível segunda volta com Milei.
Próximos passos: Chaco, plenários e um ato federal
A agenda de Kicillof inclui, além de Chaco, a continuidade dos plenários do MDF nas seções bonaerenses e um plenário federal em setembro que buscará mostrar a expansão do espaço. Enquanto isso, Massa e Zamora também terão suas próprias visitas, sempre com o objetivo de ampliar a base antes de discutir candidaturas.
“O MDF não é uma franquia e ninguém é o único representante nas províncias. A ideia de Axel é representar todos os setores”, explicaram de seu entorno. A consigna é clara: “Nem dedo nem articulação, o povo”. A unidade, por enquanto, se constrói com diálogo e território.