A política e a economia argentina vivem um momento de alta tensão nesta terça-feira, 18 de agosto de 2026. O governo de Javier Milei enfrenta uma agenda carregada: turbulência nos mercados, um escândalo internacional envolvendo um ex-integrante do círculo próximo ao presidente e movimentações estratégicas para consolidar o projeto político de cara ao próximo ciclo eleitoral.
O risco-país da Argentina, indicador que mede o prêmio de risco exigido pelos investidores para comprar títulos da dívida local, voltou a superar a marca dos 500 pontos básicos, fechando em 506 pontos — o maior nível desde o final de maio. O índice, calculado pelo banco americano JP Morgan, subiu 17 pontos na primeira sessão da semana. A alta reflete a cautela do mercado diante de um cenário complexo: incertezas eleitorais, queda da atividade econômica, um ambiente internacional desfavorável com taxas de juros globais elevadas e um esquema monetário cada vez mais difícil de interpretar.
No campo político, a detenção de Fernando Cerimedo na Bolívia agitou o cenário. O ex-assessor de Milei foi preso no aeroporto de Viru Viru, em Santa Cruz de la Sierra, quando tentava embarcar de volta para a Argentina. Ele é investigado como suposto autor intelectual do ataque a tiros contra sua ex-companheira, a ativista Nadia Beller, de 33 anos. Beller levou três tiros na noite de segunda-feira e permanece hospitalizada. O Ministério Público boliviano aponta Cerimedo como "o único acusado", já que a vítima o identificou diretamente.
Articulação política e o caminho para 2027
Enquanto isso, o governo tenta blindar sua base de apoio. Nesta terça-feira, a mesa política se reúne no gabinete do chefe de Gabinete, Diego Santilli, para definir a estratégia legislativa dos próximos meses. O tema central é a possível eliminação ou suspensão das PASO (as eleições primárias obrigatórias na Argentina). O governo reativou os contatos com o partido PRO, depois de uma conversa telefônica entre Karina Milei, secretária-geral da Presidência e irmã do presidente, e o ex-presidente Mauricio Macri.
Além disso, Santilli e o ministro da Economia, Luis Caputo, avançaram em um acordo com governadores do Norte Grande (região que inclui as províncias do norte argentino) para apoiar a reforma da lei de Zonas Frias no Senado. A reunião contou com a participação dos governadores de Catamarca, Salta, Chaco e Jujuy. O objetivo é atender às maiores necessidades de consumo de energia elétrica das famílias da região durante os meses de calor intenso.
Visita do Papa León XIV
A secretária-geral da Presidência convocou a Conferência Episcopal Argentina para uma reunião de trabalho nesta terça-feira, às 17h, na Casa Rosada (sede do governo), para coordenar a visita do Papa León XIV ao país. A viagem papal está prevista entre 8 e 11 de novembro e incluirá Buenos Aires, Luján e Córdoba. O encontro terá a presença do arcebispo Jorge García Cuerva.
Solidariedade com a Colômbia
O governo argentino anunciou o envio de um contingente de 32 militares das Forças Armadas à Colômbia, com uma estação potabilizadora de água, cozinha de campanha e 4.000 rações alimentares. O objetivo é ajudar as regiões atingidas pelo terremoto de magnitude 7,4 que devastou áreas do país no último domingo. O centro de operações será em Quibdó, no departamento de Chocó.
Economia: dados mistos e pressão cambial
Os números econômicos apresentam um cenário de contrastes. Por um lado, o superávit fiscal de julho chegou a $244.897 milhões de pesos (resultado financeiro), um número que o ministro Caputo comemorou nas redes sociais. A inflação por atacado foi de 0,8% em julho, a menor taxa em 14 meses.
No entanto, o salário real dos trabalhadores do setor privado formal caiu abaixo do nível registrado antes da posse de Milei, mesmo considerando a medição que o governo vinha utilizando como referência. A demanda por cobertura cambial (mecanismos que protegem contra a desvalorização do peso) quadruplicou nos últimos três meses: o estoque total superou os US$ 12,1 bilhões, contra US$ 3,2 bilhões no final de maio. Esse número indica uma crescente expectativa de desvalorização da moeda e a tensão no mercado de câmbio.
Um relatório confidencial do Ministério da Desregulamentação também revelou que os medicamentos na Argentina têm preços de lista consideravelmente mais altos que em outros países. A relação mediana encontrada foi de 3,1 vezes em comparação com os valores internacionais.
Justiça e Congresso
No campo judicial, Florencio Randazzo, ex-ministro dos Transportes, prestou depoimento como testemunha no julgamento oral da Causa Cuadernos, processo que investiga uma suposta organização criminosa liderada pela ex-presidente Cristina Kirchner para arrecadar propinas de empresários. Além disso, o júri de acusação removeu o juiz federal de Mar del Plata, Alfredo López, por expressões antissemitas publicadas em redes sociais — uma decisão inédita.
Na legislatura da cidade de Buenos Aires, o partido de Milei, La Libertad Avanza, aderiu a um acordo entre o PRO e o Partido Justicialista (peronista) para manter as autoridades do Ministério Público Fiscal e da Defensoria do Povo. Na província de La Rioja, o governador Ricardo Quintela relançou os Bônus de Cancelamento de Dívida (BOCADE), conhecidos como "Chachos", em um montante de cerca de $4 bilhões de pesos, para aproximadamente 80 mil beneficiários.
A jornada desta terça-feira deixa uma imagem clara: um governo que busca consolidar seu modelo com reformas estruturais, mas que enfrenta um cenário econômico desafiador e uma oposição que tenta capitalizar o descontentamento social. As próximas semanas serão fundamentais para definir o rumo da gestão Milei rumo às eleições de 2027.
Com informações de agências de notícias e dos jornais Clarín, La Nación e Ámbito Financiero.