Uma visita histórica que já virou disputa política
A chegada do Papa Leão XIV à Argentina, marcada para os dias 8 a 11 de novembro de 2026, é muito mais do que um evento religioso: é um campo de batalha política. O governo de Javier Milei quer capitalizar a visita ao máximo, enquanto o peronismo tenta mostrar proximidade com o Pontífice nos bairros populares e junto à CGT, a central sindical mais importante do país.
Na Casa Rosada, sede do governo argentino, confirmaram que estudam decretar feriado nacional nos dias em que o Papa estiver no país. A medida facilitaria a participação das multidões nos atos públicos. As estimativas oficiais falam em pelo menos 1 milhão de pessoas por evento.
Agenda provável
- Buenos Aires: missa campal no Monumento aos Espanhóis
- Luján: visita à Basílica, um dos principais centros de peregrinação do país
- Córdoba: evento no polo da FADEA, a fábrica de aviões estatal
- Claypole: possível visita ao cotolengo, instituição de acolhimento de pessoas com deficiência (a confirmar)
Dados essenciais
- Período: 8 a 11 de novembro de 2026
- Hospedagem: Nunciatura Apostólica, em Buenos Aires
- Imprensa: mais de 80 jornalistas internacionais credenciados
- Próxima reunião: 30 de agosto com a comitiva do Vaticano
Governo se organiza e Igreja pede participação de todos
No dia 18 de agosto de 2026, a secretária-geral da Presidência, Karina Milei, irmã do presidente, comandou a primeira reunião interministerial na Casa Rosada para coordenar a logística. Participaram os ministros Alejandra Monteoliva (Segurança), Sandra Pettovello (Capital Humano), o chanceler Pablo Quirno e o secretário de Comunicação, Fabián Fernández. Pela Conferência Episcopal Argentina (CEA) estiveram o arcebispo de Buenos Aires, Dom Jorge García Cuerva, e os padres Matías Taricco e Máximo Jurcinovic. O governo da cidade de Buenos Aires enviou seu chefe de Gabinete, Gabriel Sánchez Zinny.
Um detalhe que não passou despercebido: a província de Buenos Aires, a mais populosa do país, ficou de fora do encontro. A CEA pediu que os governos provinciais sejam incluídos nas próximas reuniões, especialmente os de Buenos Aires e Córdoba, que receberão eventos.
“É uma visita de alcance nacional e, como chefe de Estado, ele certamente terá um encontro com Javier Milei”
Segurança e logística: operação gigantesca
A ministra Monteoliva será a responsável por articular os esquemas de segurança com a cidade de Buenos Aires e as províncias. A expectativa é de eventos multitudinários ao ar livre, o que exige um deslocamento sem precedentes na história recente do país. O núncio apostólico no Brasil, Dom Michael Wallace Banach, elogiou a disposição do governo argentino em coordenar os preparativos.
O Papa ficará hospedado na Nunciatura Apostólica, em Buenos Aires, e sua comitiva em um hotel ao lado, para facilitar a locomoção e a segurança.
A Liberdade Avança quer o Papa no Congresso
O partido do presidente, A Liberdade Avança (LLA), confirmou que vai formalizar o pedido para que Leão XIV participe de uma Sessão Legislativa no Congresso Nacional. O anúncio foi feito pelo deputado Santiago Santurio, aliado de primeira hora de Javier Milei, que assumiu a presidência do Grupo Parlamentar de Amizade com a Santa Sé.
“Todos os partidos estão tomados pela alegria de recebê-lo. Esperamos participar e, quem sabe, ele possa vir à Assembleia Legislativa”, disse Santurio. Mas ele mesmo reconheceu que será difícil por causa da agenda apertada do Pontífice em apenas quatro dias.
Já existe um projeto de convite apresentado pelo deputado Sebastián Nóblega, da província de Catamarca, alinhado ao governador peronista Raúl Jalil. Nóblega foi nomeado vice-presidente do grupo de amizade. A última Assembleia Legislativa com um visitante estrangeiro foi em maio de 2014, quando a então presidente chilena Michelle Bachelet discursou no Congresso argentino.
E o Papamóvel?
Enquanto a agenda não é confirmada, o site argentino Parabrisas imaginou, com ajuda de inteligência artificial, qual seria o veículo do Papa. As opções incluem uma Toyota Hilux, uma Hiace ou até um Fiat Cronos, um dos carros mais populares do país. Nas visitas de João Paulo II em 1982 e 1987, foram usados uma Ford F-350 adaptada pelo ACA (Automóvil Club Argentino) e uma Chevrolet C-10, além de uma Renault Trafic. Ainda não há confirmação oficial sobre o veículo.
Uma homenagem a Francisco?
Fontes da CEA disseram que “provavelmente Leão fará alguma homenagem ao Papa Francisco” durante a visita, embora nenhuma atividade tenha sido confirmada. Também alertaram que o Pontífice pode tocar em questões políticas e econômicas em seus discursos: “Ele vai dizer o que quiser, e todos vamos ouvir”.
O fator político: PASO, peronismo e a disputa pelo relato
A visita papal acontece em um momento politicamente sensível, em plena batalha sobre a suspensão das PASO, as eleições primárias argentinas. O governo adiou o debate para o fim do ano, a poucos meses das eleições nacionais de 2027.
O peronismo, por sua vez, quer mostrar ao Papa “a Argentina de Milei e Peter Thiel”, em referência às críticas de Leão XIV aos bilionários do Vale do Silício. O partido vai apostar nos bairros populares e na CGT, que já organizou uma marcha contra o endividamento das famílias em 20 de agosto de 2026.
O governo, ciente dessa disputa, tenta monopolizar a narrativa da visita. Na Casa Rosada, o evento já foi chamado de “histórico”, mas fontes admitem que os discursos de Leão XIV podem colidir com as ideias de Milei sobre políticas sociais e economia.
Próximos passos
- 30 de agosto: nova visita da comitiva do Vaticano para vistoriar os locais dos eventos
- Definição do feriado: deve ser decretado pouco antes da chegada do Papa
- Confirmação da agenda: depende da aprovação final da Santa Sé
A visita de Leão XIV será a primeira de um Papa à Argentina desde 1987, quando João Paulo II percorreu o país. Um marco que promete mudar a relação entre Estado, Igreja e sociedade argentina.