O drama do endividamento na Argentina
Em meio ao aumento explosivo do endividamento e da inadimplência das famílias argentinas, o governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, e o ministro da Produção, Ciência e Inovação Tecnológica, Augusto Costa, anunciaram nesta quinta-feira, 20 de agosto de 2026, medidas para proteger os usuários de carteiras virtuais. A decisão ocorre após uma série de denúncias por abusos e descumprimento da lei de Defesa do Consumidor argentina.
Na Argentina, o termo "carteira virtual" se refere a aplicativos de pagamento e crédito como Mercado Pago, Ualá e Naranja Digital, que se tornaram essenciais para o consumo diário no país. Elas permitem transferências, pagamentos e até mesmo empréstimos pessoais, mas com taxas de juros muito altas.
Segundo dados do Banco Central da República Argentina (BCRA), o nível de inadimplência das famílias atingiu 12,7% em junho de 2026, quando dois anos antes era de apenas 2,5%. Estima-se que 5,8 milhões de pessoas estejam em mora, e o crédito via fintech exibe taxas superiores a 150% ao ano no custo financeiro total.
O que está sob investigação e quais são as multas
Em uma conferência de imprensa, Augusto Costa detalhou que, no primeiro semestre de 2026, a Direção de Defesa do Consumidor da província recebeu 2.240 denúncias contra Mercado Pago, Naranja Digital, Ualá, Personal Pay, Brubank e Cencosud por descumprimentos, assédio e ataques. Nesse contexto, foi aberto um processo de investigação e as empresas foram obrigadas a informar os critérios usados para impor as taxas de juros e qual é a composição real do custo financeiro total.
— Se as irregularidades forem confirmadas, a lei prevê multas de até R$ 1.883 milhões (equivalente a quase 11 milhões de reais) e a obrigação de reverter as práticas abusivas — afirmou o funcionário.
Essas empresas são os principais meios de pagamento digital na Argentina. Além delas, o governo federal também fez um endurecimento contra as fintechs que não respeitam as regras de transparência ao informar o custo do crédito.
Críticas da esquerda: "Kicillof também é responsável"
Enquanto Kicillof e a CGT (central sindical argentina) usaram a luta contra o endividamento como sua grande bandeira, o portal La Izquierda Diario publicou em 21 de agosto de 2026 uma coluna intitulada "Kicillof disse que o endividamento é só culpa de Milei... do lado da CGT", assinada por Lucho Aguilar. O artigo argumenta que o governador para a província se cerca de reuniões sindicais e usa o tema para sua campanha, mas ignora a responsabilidade da própria CGT, que permitiu que os salários privados ficassem muito abaixo da inflação, e de sua própria gestão, que acumulou uma perda de 27% do poder de compra dos funcionários públicos.
Além disso, destaca-se que o BAPRO, o banco público da província de Buenos Aires, tem uma inadimplência de 12% em sua carteira de crédito, similar à dos grandes bancos privados, e o custo financeiro total dos seus empréstimos chega a 156% ao ano. O texto conclui que nem o governo nacional nem as burocracias sindicais apresentam uma saída real para os trabalhadores.
Contexto: a marcha da CGT e da CTA
No mesmo dia 20 de agosto de 2026, a CGT e as duas CTA (centrais sindicais) marcharam em frente ao Ministério da Economia argentino para protestar contra o endividamento das famílias. A secretária de Políticas Sociais da ATE, Marina Alí, alertou para um "risco de explosão social" e exigiu que o governo regule as taxas de usura das carteiras virtuais.
Kicillof, por sua vez, participou em 19 de agosto da normalização da CGT provincial em Chaco, onde foi lançado como "futuro presidente", segundo um dirigente de Sanidade. O governador tem usado o tema do endividamento como parte do seu discurso contra as políticas do presidente Javier Milei, em um ano de eleições no país.
Na Argentina, o contexto é extremo: a inflação continua alta, mas o governo federal, liderado pelo ultraliberal Javier Milei, cortou gastos públicos. As famílias perderam poder de compra e as carteiras virtuais se tornaram a única opção de crédito, mas com juros muito altos.
Se as práticas ilegais forem comprovadas, as fintechs terão que pagar multas e reajustar seus contratos. O governo da província de Buenos Aires, agora em plena campanha eleitoral, tenta fortalecer sua imagem de defensor dos consumidores e abrir uma nova fonte de receita para os cofres públicos.