O custo oculto do doomscrolling no expediente
O doomscrolling – o hábito de deslizar a tela do celular ou computador para consumir notícias negativas ou perturbadoras – virou rotina para milhões de pessoas. Mas quando acontece durante o horário de trabalho, o efeito vai muito além da perda de tempo. Um estudo conduzido por Ian Hughes, professor adjunto do Departamento de Ciências Psicológicas e do Cérebro da Universidade Texas A&M, revelou que essa exposição constante a más notícias deixa os funcionários “presos em pensamentos repetitivos”, reduzindo o envolvimento com as tarefas mesmo depois de guardar o celular.
A pesquisa, publicada na revista Computers in Human Behavior em 17 de agosto de 2026, incluiu dois subestudos com trabalhadores dos Estados Unidos e do Reino Unido. Em ambos, quem praticava doomscrolling durante a jornada tendia a ruminar o conteúdo negativo que acabara de ver, e essa ruminação estava diretamente ligada a uma menor conexão com o trabalho.
O efeito conforme a personalidade
Os pesquisadores notaram que o impacto era especialmente forte em pessoas com alto nível de neuroticismo – um traço associado a ansiedade e preocupação. Essas pessoas processam a informação negativa de forma mais profunda, o que amplifica o prejuízo no desempenho.
Por que fazemos isso?
Hughes explica que o doomscrolling não nasce de um desejo de se sentir mal, mas de uma tentativa de acalmar a ansiedade em momentos de incerteza. Durante uma pandemia, uma guerra ou uma crise social, as pessoas atualizam as redes sem parar para “entender” o que está acontecendo. O problema é que essa busca as expõe repetidamente a conteúdo angustiante, criando um ciclo vicioso.
Uma faca de dois gumes
O pesquisador define o doomscrolling como “uma faca de dois gumes”: ao mesmo tempo que satisfaz a necessidade de informação, deixa uma marca mental que persiste muito depois de fechar o aplicativo. “Descobrimos que os trabalhadores que fazem doomscrolling no expediente estão menos engajados, em parte porque a mente deles continua preocupada, como se repetisse as imagens e mensagens que encontraram durante essas sessões”, afirma Hughes.
Essa persistência mental é a chave para entender por que a implicação com o trabalho cai, independentemente do tempo perdido olhando para o telefone.
O ambiente de trabalho: vulnerabilidade digital
Os locais de trabalho atuais são especialmente vulneráveis porque os funcionários carregam consigo todo o ciclo informativo. Smartphones, laptops e redes sociais facilitam checar as novidades entre tarefas, reuniões ou e-mails. “Para muita gente, é muito difícil desviar o olhar dessas coisas”, comenta Hughes.
No entanto, ele não acredita que a solução seja proibir celulares no trabalho. “A realidade é que essas políticas muitas vezes só deixam as pessoas irritadas e não funcionam de verdade”, enfatiza.
Recomendações práticas
Em vez de proibições, Hughes sugere estabelecer limites físicos e temporais: “Se você vai fazer doomscrolling, tente confinar esse comportamento a um único lugar físico na sua vida”. Ele propõe que, em vez de fazer isso no trabalho, a prática fique restrita a casa, a uma poltrona confortável, a uma sala de descanso, a um café ou a um bar.
O pesquisador acredita que esse conselho não vai perder a validade tão cedo, porque o acesso às redes sociais só aumenta e os algoritmos alimentam um fluxo constante de conteúdo feito para capturar a atenção. “É importante se manter informado. O que também é importante é não deixar que essa busca por informação ocupe cada momento da sua vida”, conclui.
O doomscrolling é mais comum entre pessoas de 18 a 35 anos, mas pode afetar qualquer trabalhador que use redes sociais durante o dia.
Um problema crescente no Brasil e na Argentina
Embora o estudo tenha sido feito nos EUA e no Reino Unido, suas conclusões valem para qualquer país com alta penetração digital. No Brasil, onde a instabilidade econômica e política gera um fluxo constante de notícias negativas, o doomscrolling pode estar afetando a produtividade de milhares de trabalhadores sem que muitos percebam. O mesmo vale para a Argentina, que enfrenta desafios semelhantes.
A chave está em tomar consciência do hábito e impor limites, não só para proteger a concentração no trabalho, mas também a saúde mental. Como diz Hughes: “Não deixe que essa busca por informação ocupe cada momento da sua vida”.