Uma epidemia que não dá trégua
A sífilis, uma das infecções sexualmente transmissíveis (IST) mais antigas e preveníveis, volta a acender todos os alertas na Argentina. Segundo o Boletim Epidemiológico Nacional N° 821 do Ministério da Saúde da Nação, nas primeiras 30 semanas de 2026 foram notificados 28.932 casos de sífilis na população geral, contra uma mediana histórica de 15.922 para o mesmo período. Isso representa um aumento de 82%, o maior registro desde o início do monitoramento nacional.
O aumento não se limita à população geral: as gestantes também mostram números recordes. Foram notificadas 6.545 mulheres com teste positivo durante o ano, 29% a mais que a mediana dos últimos quatro anos. E talvez o dado mais doloroso: 542 recém-nascidos com sífilis congênita em 2026, 12% acima da média histórica.
O que é a sífilis e por que é tão perigosa?
A sífilis é uma infecção bacteriana causada pelo Treponema pallidum. É transmitida principalmente por relações sexuais sem proteção (98% dos casos) e também da mãe para o filho durante a gravidez. O mais arriscado é que pode ser assintomática em grande parte das pessoas, o que facilita sua propagação sem que a pessoa saiba.
Quando não tratada a tempo, pode causar complicações graves: danos neurológicos, cardiovasculares, cegueira, demência e até morte. Em gestantes, a transmissão ao bebê pode provocar abortos espontâneos, morte fetal, baixo peso ao nascer, convulsões, calcificações cerebrais, problemas oftalmológicos e auditivos e deficiências cognitivas.
A boa notícia: pode ser prevenida e curada
Diferente de outras IST, a sífilis tem tratamento simples, eficaz e de baixo custo: penicilina. Se detectada precocemente, interrompe a transmissão e evita sequelas. O diagnóstico é feito com um simples exame de sangue.
Especialistas insistem que a sífilis congênita deveria ser zero: com teste rápido no primeiro nível de atenção e tratamento com penicilina durante a gravidez, a transmissão ao bebê pode ser totalmente evitada.
Panorama provincial: Jujuy e Entre Ríos em alerta
Em Jujuy, o licenciado Juan Carlos Márquez, coordenador da Área de Resposta ao HIV e da Associação Civil de Promoção da Saúde, alertou que jovens de 20 a 24 anos são o grupo mais afetado. "As pessoas perderam a importância de se cuidar", afirmou, destacando que muitos mantêm relações de casal "formais ou informais" que geram uma "falsa sensação de segurança".
Em Entre Ríos, o médico infectologista Francisco Astudilla confirmou um aumento de 47% no setor público durante 2025, com concentração no grupo de 14 a 26 anos. "98% dos casos são de transmissão sexual", explicou, e ressaltou que a falta de acesso à informação é um dos principais fatores.
O abandono do preservativo e a prevenção combinada
Por trás desses números aparece um fenômeno preocupante: a moda de não usar preservativo, especialmente entre os mais jovens. A infectologista Elena Obieta, diretora de Epidemiologia da Municipalidade de San Isidro, resumiu: "Há uma moda de não usar preservativo".
O doutor Astudilla introduziu o conceito de prevenção combinada, que coloca no mesmo nível de importância: o uso do preservativo, testes periódicos, aconselhamento, contracepção, educação sexual integral, profilaxia farmacológica (PrEP e PEP) e tratamento oportuno. "Como essa estratégia é desconhecida, ao abandonar o preservativo, esse aumento se evidencia", explicou.
A PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) é uma das ferramentas mais eficazes: reduz em 99% a aquisição de HIV, sífilis e gonorreia em pessoas com alto risco de exposição, embora exija indicação e acompanhamento médico.
O que fazer diante desse alerta?
- Usar preservativo em todas as relações sexuais, sejam ocasionais ou estáveis.
- Realizar testes periódicos de IST, especialmente com múltiplas parcerias ou relações sem proteção.
- Gestantes devem fazer o teste de sífilis no primeiro trimestre e repetir no terceiro.
- Diante de qualquer lesão, ferida ou sintoma, consultar um médico imediatamente.
- Existem pontos de testagem gratuitos em hospitais e centros de saúde em todo o país.
Dados-chave para entender a magnitude
| Indicador | Número em 2026 | Variação vs. mediana histórica |
|---|---|---|
| Casos de sífilis (população geral) | 28.932 | +82% |
| Sífilis em gestantes | 6.545 | +29% |
| Sífilis congênita (recém-nascidos) | 542 | +12% |
| Casos em Entre Ríos (setor público, 2025) | — | +47% |
Fonte: Boletim Epidemiológico Nacional N° 821 e relatórios provinciais.
Um chamado à ação
Diante desse cenário, especialistas insistem que a solução está ao alcance das mãos. A sífilis não é uma doença do passado: continua presente e afeta principalmente os jovens. Informação, uso do preservativo, controles periódicos e consulta médica precoce são ferramentas fundamentais para interromper as cadeias de transmissão.
A prevenção é simples, acessível e salva vidas. Não esperemos os números continuarem subindo para agir.
Fontes: Que Pasa Jujuy | El Día Online | Elonce