Uma vacina com benefícios surpreendentes
A vacina Shingrix, desenvolvida pela farmacêutica GlaxoSmithKline para prevenir o herpes-zóster (conhecido como culebrilla na Argentina e cobrão no Brasil), demonstrou em dois estudos recentes um efeito protetor adicional impressionante: menor risco de demência e de doenças cardiovasculares em adultos mais velhos.
O herpes-zóster é uma doença causada pela reativação do vírus varicela-zóster, o mesmo que causa a catapora. Após a infecção inicial, o vírus permanece dormente nos gânglios nervosos e pode reaparecer anos depois, causando dor intensa, erupções cutâneas e, em alguns casos, complicações neurológicas crônicas, como a neuralgia pós-herpética.
Estudo 1: Menor risco de demência em vacinados
O primeiro estudo, publicado em Annals of Internal Medicine e liderado pela Universidade de Brown (EUA), analisou registros de 509.926 adultos com 66 anos ou mais que viviam em mais de 5.500 centros de enfermagem especializados nos Estados Unidos. Usando dados do Medicare e de históricos clínicos entre 2017 e 2022, os pesquisadores compararam quem recebeu ao menos uma dose da Shingrix com quem não recebeu.
'Os vacinados apresentaram 24% menos risco de serem diagnosticados com demência durante os 4 anos de acompanhamento', explicou Kaley Hayes, autora principal do estudo.
Em números concretos, a incidência de demência foi de 18,8% no grupo vacinado, contra 24,6% no não vacinado. Isso significa que, para cada 17 pessoas vacinadas, aproximadamente 1 caso de demência foi prevenido.
A equipe usou a metodologia de 'target trial emulation' (emulação de ensaio alvo), que replica os critérios de um ensaio clínico randomizado usando dados observacionais, o que fortalece a validade dos achados. No entanto, os autores alertam que o estudo não prova causalidade, pois os vacinados eram ligeiramente mais jovens e saudáveis em geral.
Estudo 2: Proteção cardiovascular também associada
O segundo estudo, publicado em Nature Medicine e liderado pelo Dr. Maxime Taquet, da Universidade de Oxford (Reino Unido), acompanhou 70.000 adultos com mais de 60 anos por um período de 7 anos após a vacinação (dose inicial e reforço). Os resultados mostraram que os vacinados tiveram 12% menos risco de sofrer um evento cardiovascular (como acidente vascular cerebral, insuficiência cardíaca, doença cardíaca isquêmica ou fibrilação atrial) nos 3,5 anos seguintes à vacinação. No final do acompanhamento, a redução geral foi de 4%.
Os pesquisadores destacaram que esse efeito pode ser comparável ao dos anti-hipertensivos, embora enfatizem que é necessária confirmação por meio de ensaios clínicos randomizados.
Por que isso acontece? A hipótese da 'imunidade treinada'
Os autores de ambos os estudos especulam sobre os mecanismos biológicos por trás desses achados. Uma das teorias mais fortes é a chamada 'imunidade treinada': certas vacinas podem gerar mudanças epigenéticas nas células da imunidade inata, melhorando sua resposta inespecífica contra vários patógenos e reduzindo a inflamação crônica, que é um fator-chave em doenças neurodegenerativas e cardiovasculares.
Essa hipótese é apoiada por observações anteriores: um estudo de 2025 na Nature Medicine encontrou uma redução de 27-33% no risco de demência associada à vacinação, e outro de 2023 vinculou a vacina BCG (contra a tuberculose) a um menor risco de demência. Associações semelhantes também foram documentadas com vacinas contra a gripe sazonal, VSR, tétano-difteria-coqueluche, pneumococo, hepatite A e B e febre tifóide.
O renomado cardiologista Dr. Eric Topol, referência em longevidade, comentou que a redução de eventos cardiovasculares observada (~10% em AVC, insuficiência cardíaca, doença cardíaca isquêmica e fibrilação atrial) é notável e merece mais investigação.
Implicações e próximos passos
Esses achados, embora observacionais, abrem caminho para considerar as vacinas como ferramentas potenciais na prevenção de doenças crônicas no envelhecimento. No entanto, os cientistas insistem que ensaios clínicos randomizados são necessários para confirmar a causalidade e descartar fatores de confusão.
A vacina Shingrix, já recomendada para adultos mais velhos em muitos países, pode assim oferecer benefícios adicionais à sua função principal. Enquanto isso, os especialistas recomendam manter as diretrizes de vacinação habituais e consultar profissionais de saúde sobre as opções disponíveis.
O estudo da Universidade de Brown foi financiado pela GlaxoSmithKline, fabricante da Shingrix, embora a empresa não tenha controle sobre o design ou a publicação dos resultados. A pesquisa de Oxford usou dados de registros de saúde do Reino Unido.
Esses resultados se somam a um crescente corpo de evidências sugerindo que as vacinas, além de prevenir doenças infecciosas, podem ter efeitos benéficos inesperados na saúde a longo prazo.