26/07/2026 06:17 - Sociales
A história parece saída de um filme, mas aconteceu na vida real no Chile e tem todo o país falando. Em 16 de julho de 2026, de madrugada, três pessoas saíram da discoteca Terrazielo, localizada na comuna de Peñalolén, Santiago, e decidiram viajar mais de 115 quilômetros até as Termas del Valle de Colina, no coração do Cajón del Maipo, um vale cordilheirano aos pés dos Andes.
Mas havia um detalhe crucial: as autoridades já haviam decretado o fechamento preventivo da Rota G-25 devido a alertas meteorológicos de um intenso sistema frontal que trazia nevascas extremas. Além disso, o veículo em que viajavam não era 4x4 e tinha uma ordem de apreensão por parcelas não pagas, segundo informou o meio chileno La Tercera. Nada disso deteve o grupo.
Segundo informaram diversos meios chilenos, ambas as mulheres eram as professoras do nível inicial do filho de Orellana, e o conheciam há mais de seis anos. Essa relação gerou um intenso debate nas redes sociais e na mídia.
Após não conseguirem chegar ao destino original de Baños Morales porque o carro não conseguia avançar pela neve, os três desceram e caminharam cerca de dez minutos até encontrar um refúgio nas Termas del Valle de Colina. A propriedade pertencia a Hernán 'Nano' Covarrubias, gerente do estabelecimento turístico, que havia ordenado evacuar o local diante da tempestade, mas deixou as portas abertas caso alguém ficasse preso.
'O refúgio era mantido aberto com víveres para pelo menos um mês. Havia comida enlatada, boa cama, cobertores, um hostel com 10 quartos com toda a roupa de cama, e uma cabana ao lado com três quartos e uma cozinha com toda a implementação para sobreviver', explicou Covarrubias em uma coletiva de imprensa.
Um vídeo divulgado após o resgate mostrou o interior do refúgio: garrafas de vinho e pisco, latas de cerveja, atum e jurel, uma panela com macarrão, uma bandeja de ovos e cobertores usados para se aquecer. Esses elementos foram fundamentais para que os três pudessem cozinhar, acender fogo e se proteger das intensas nevascas durante seis noites completas.
As famílias denunciaram o desaparecimento e a Polícia de Investigações do Chile (PDI) começou a reconstruir o percurso revisando câmeras de segurança, leituras de placas e depoimentos de testemunhas. Uma testemunha chave afirmou ter visto o grupo se dirigir para Baños Morales e que as mulheres estavam em boas condições, sem indícios de terem sido coagidas.
Na quarta-feira, 22 de julho de 2026, com uma melhora do clima, um helicóptero dos Carabineros decolou do aeródromo Tobalaba com pessoal do Grupo de Operações Policiais Especiais (GOPE). Durante um sobrevoo, o capitão Matías Zagal detectou movimento perto do refúgio: Orellana saiu para fora e começou a fazer sinais com os braços, o que permitiu ao piloto pousar e concretizar a evacuação.
Primeiro foi evacuado o homem e depois o helicóptero voltou para buscar as duas mulheres. Os três foram levados para a localidade de San Gabriel e submetidos a exames médicos. Os primeiros exames determinaram que estavam sem lesões e em bom estado de saúde geral, embora afetados emocionalmente pelo isolamento.
'Hoje eles se sentem arrependidos, disseram que nunca deveriam ter subido, que foi uma má decisão', afirmou a subprefeita Tatiana García-Huidobro, chefe da Brigada de Localização de Pessoas da PDI.
A imprudência teve um preço altíssimo. A operação mobilizou Carabineros, PDI, Exército, Bombeiros, Socorro Andino, SAMU e funcionários municipais do Senapred (Serviço Nacional de Prevenção e Resposta a Desastres).
| Conceito | Estimativa (pesos chilenos) | Equivalente aproximado (USD) |
|---|---|---|
| Extração com helicóptero GOPE (estatal) | $15.000.000 - $20.000.000 | ~US$16.000 - US$21.000 |
| Mesmo procedimento contratado a privado | $40.000.000 | ~US$43.000 |
| Custo total estimado da operação completa | $100.000.000 - $200.000.000 | ~US$107.000 - US$214.000 |
O diretor de Segurança Pública do município de San José de Maipo, Felipe Armijo, estimou que o resgate superou os 100 milhões de pesos chilenos (aproximadamente 107.000 dólares). Por sua vez, Alfonso Kaiser, professor de riscos do Master of Engineering Management da Universidad de los Andes (Uandes), explicou que o cálculo inclui fatores como manutenção futura, peças de reposição e depreciação das aeronaves, estimando que o custo total poderia alcançar entre 150 e 200 milhões de pesos.
O governo do Chile, por meio da Delegação Presidencial Metropolitana, consultou o Conselho de Defesa do Estado (CDE) para determinar se é possível recuperar os recursos públicos utilizados na busca e no resgate. Isso significa que os três resgatados podem enfrentar uma ação judicial do Estado.
Nas primeiras horas da busca, circulou a hipótese de um sequestro. No entanto, a esposa de Orellana descartou enfaticamente essa versão em entrevista ao canal Mega:
'Eles já se conheciam, já haviam conversado e compartilhado muito antes. Nunca foi um sequestro, não é assim', afirmou a mulher, referindo-se à relação prévia entre seu marido e as duas educadoras infantis.
O caso se tornou um dos temas mais comentados da semana no Chile, tanto pela incrível história de sobrevivência em condições extremas quanto pela dimensão pessoal dos envolvidos, que gerou memes e um acalorado debate nas redes sociais sobre a responsabilidade individual diante de emergências climáticas e o custo das imprudências para o erário público.
Alfredo S. Quiroga