Uma luminária da ciência mundial
Desde que em setembro de 1998 seu trabalho deslumbrou dezenas de físicos em um congresso sobre teoria das cordas em Santa Bárbara, Califórnia — que se puseram a dançar e cantar seu nome ao ritmo da “Macarena”—, o físico argentino Juan Martín Maldacena se tornou uma figura central da física teórica. Nascido no bairro de Caballito e graduado no Instituto Balseiro de Bariloche, hoje é pesquisador no Institute for Advanced Study de Princeton e foi o professor vitalício mais jovem da história de Harvard.
Sua famosa “conjectura de Maldacena” (Correspondência AdS/CFT), formulada em 1997, conseguiu vincular duas teorias matematicamente irreconciliáveis: a relatividade geral (que explica o comportamento de objetos muito grandes como estrelas e planetas) e a mecânica quântica (que descreve o mundo subatômico). Essa ideia, que funciona como um holograma físico, mereceu uma extensa matéria no The New York Times e detém o recorde da física teórica com mais de 15.000 citações.
Reconhecimentos e generosidade
Maldacena foi um dos nove vencedores da primeira edição do Prêmio Yuri Milner de Física Fundamental, no valor de três milhões de dólares. Imediatamente após recebê-lo, fez uma generosa doação ao Instituto Balseiro para programas de professores visitantes, divulgação científica, um museu de ciências e transferência de conhecimento. Também recebeu as medalhas Lorentz (concedida a cada quatro anos), Galileo e Einstein. A Thomson Reuters o incluiu entre as mentes científicas mais influentes do mundo.
Sua visita à Argentina
Há poucos dias, Maldacena esteve no país para participar da conferência “Advances in Quantum Gravity & Strings” realizada no Instituto de Física de La Plata, que homenageou as carreiras de seu professor e orientador de tese, Gerardo Aldazabal, e de Carmen Núñez. Em entrevistas ao El Destape e ao Infobae, o cientista de respostas breves (brinca dizendo que “cala em todos os idiomas”) compartilhou suas reflexões.
Buracos negros, Big Bang e viagens no tempo
Questionado sobre os buracos negros, explicou: “É uma região do espaço-tempo onde o espaço e o tempo se deformam de maneira intensa. Dentro do buraco negro, ocorre o oposto do Big Bang: tudo colapsa e a curvatura se torna muito grande, chegando como a um fim do tempo”. Destacou que o interesse atual se deve a novas observações, como a detecção de ondas gravitacionais e as imagens do Event Horizon Telescope.
Sobre a possibilidade de viajar no tempo, afirmou: “Dá para viajar ao futuro, mas não para voltar e contar”. A maneira mais simples seria viajar a velocidades muito rápidas, onde não se envelheceria. “Não sei se teria muitas vantagens, porque depois não se poderia voltar para contar”, brincou.
Quanto ao Big Bang, assinalou que conceitualmente se parece a um “buraco branco” (o reverso temporal de um buraco negro), mas esclareceu que não há uma teoria consistente que o confirme. “A meta de longo prazo é entender melhor o interior dos buracos negros e, eventualmente, o princípio do Big Bang”, disse.
Inteligência artificial e educação
Maldacena se mostrou otimista sobre a IA: “Não vejo, em princípio, por que deveria haver algum limite. Nos últimos quatro anos, avançou-se muito. Agora, pode-se colocar os artigos que se escreve sob a ótica da IA e ela dá sugestões. Encontra pequenos erros. O artigo que estamos escrevendo agora se baseia em um anterior que a inteligência artificial havia encontrado”.
Também valorizou a ciência argentina: “Há muitos grupos que estão fazendo física muito interessante. Por exemplo, Horacio Cassini em Bariloche e seus colaboradores estão desenvolvendo uma visão da teoria quântica de campos baseada na teoria da informação, que são líderes em nível mundial”.
E enviou uma mensagem sobre a educação: “Acredito que a educação é muito importante, seja pública ou privada. Um país precisa ter um sistema educativo que funcione. Às vezes, como a educação é algo cujos frutos se veem dentro de muitos anos, não se investe. Mas eu acredito que alguém que quer estudar pode fazê-lo e gostaria de dar a mensagem de que há oportunidades no país para estudar e chegar ao topo do conhecimento”.
Dados-chave de sua carreira
| Marco | Detalhe |
|---|---|
| Nascimento | Bairro de Caballito, Buenos Aires |
| Formação | Instituto Balseiro, Bariloche |
| Conjectura | Correspondência AdS/CFT (1997) |
| Citações | Mais de 15.000 |
| Prêmio | Yuri Milner (US$ 3.000.000) |
| Medalhas | Lorentz, Galileo, Einstein |
| Posição atual | Institute for Advanced Study, Princeton |
Maldacena é pai de três filhos (25, 23 e 19 anos), nenhum seguiu a carreira científica. “Eu os aborreci um pouco com a física”, confessou com humor.