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Contrabando vs. plataformas digitais: batalha de USD 2,3 bilhões divide o comércio argentino

14/06/2026 18:55 - Economia

Ilustración conceptual de un mercado digital moderno con productos flotando y elementos visuales que representan el comercio electrónico, en colores vibrantes y estilo isométrico limpio

O custo do comércio ilegal na Argentina

O contrabando deixou de ser um problema marginal para se tornar uma das principais preocupações da economia argentina. Segundo um informe da consultoria MAP, durante 2025 o comércio ilegal gerou uma perda de receitas fiscais estimada em USD 2,3 bilhões, equivalente a 0,3% do Produto Interno Bruto (PIB) do país.

As dimensões do problema são alarmantes: os recursos que o Estado deixou de arrecadar por falta de cobrança de tarifas, IVA e impostos internos equivaleriam à construção de 3.800 escolas, 80 hospitais de alta complexidade ou 1.900 quilômetros de estradas nacionais.

O estudo também revelou uma perda de 10.000 postos de trabalho diretos em setores produtivos e posicionou a Argentina no posto 120 entre 158 países no índice de comércio ilícito setorial elaborado pelo Tracit (Transnational Alliance to Combat Illicit Trade).

Os setores mais afetados

Setor Perda estimada (USD milhões)
Tabaco 1.100
Têxteis 370
Pneus 240
Telefones celulares 190

No caso particular dos celulares, mais de um em cada três aparelhos vendidos durante 2025 não foi fabricado no país nem ingressou por canais legais, segundo a entidade Afarte que reúne as empresas de eletrônicos. Em setores como vestuário e calçados, a participação do mercado informal alcança 40%.

Empresas vs. Plataformas: duas visões opostas

O crescimento do contrabando reavivou uma tensão entre os fabricantes e os marketplaces (plataformas de venda online como Mercado Livre). Enquanto as empresas reivindicam maiores verificações sobre os vendedores que operam em plataformas digitais, o setor do comércio eletrônico sustenta que a fiscalização corresponde aos organismos públicos.

A posição dos fabricantes

As companhias exigem que as plataformas implementem controles mais rigorosos antes de habilitar publicações. Entre as medidas propostas figuram:

  • Exigir documentação que comprove o ingresso legal da mercadoria no país
  • Solicitar registros específicos como Rematel ou a homologação do Enacom para telefones celulares
  • Realizar cruzamentos entre IVA crédito e IVA débito usando o CUIT do vendedor para detectar mercadoria sem respaldo de importação

Desde Afarte assinalaram que as firmas legítimas devem absorver custos adicionais de cumprimento e controle, como sistemas de rastreabilidade e perícias, para se diferenciarem de produtos contrabandeados.

A resposta dos marketplaces

A Câmara Argentina de Comércio Eletrônico (CACE) rejeita que se associe o comércio eletrônico como origem do problema. Em diálogo com Infobae, destacaram que mais de 90% das transações são realizadas mediante meios de pagamento digitais, o que permite identificar as partes envolvidas e facilita o acesso a informações relevantes pelos organismos competentes.

O que faz o Governo?

Diferentes áreas do Estado avançam com mecanismos de coordenação para detectar publicações suspeitas e vendedores irregulares.

Convênio com Meta

No final de 2025, o Governo argentino firmou um convênio com a Meta (dona do Instagram, Facebook e WhatsApp) que estabeleceu um protocolo específico para o envio de informações. O acordo começou a operar de forma efetiva em 2026 e permite centralizar denúncias que depois são remetidas às equipes legais da companhia. Desde abril foram dados de baixa aproximadamente 30 perfis vinculados com a venda de telefones celulares.

Intercâmbio de informações com Mercado Livre

Desde março de 2026 funciona um esquema de intercâmbio de informações entre o Mercado Livre e a ARCA (Agência de Recursos da Contribuição e Aduaneira) orientado a categorias com alto nível de contrabando: pneus, celulares, brinquedos e cosméticos.

O acordo estabelece que a plataforma remete informações sobre os 20 vendedores com maior nível de faturamento e a ARCA realiza cruzamentos com a informação tributária disponível para detectar inconsistências entre as vendas realizadas e as compras declaradas.

Desde o Mercado Livre informaram que em 2025 responderam a mais de 3.000 requerimentos de informação da ARCA e que contam com mecanismos de prevenção e detecção proativa de fraudes. No segundo semestre de 2025 analisaram mais de 1,084 bilhão de publicações e 99% das infrações foram detectadas de forma proativa.

Um projeto de lei no Congresso

A discussão também chegou ao Parlamento argentino. Os deputados Guillermo Michel e Kelly Olmos apresentaram um projeto de lei que propõe:

  • Converter as plataformas de venda online em responsáveis solidárias por determinadas operações realizadas por seus usuários
  • Verificar a identidade e condição fiscal dos vendedores
  • Exigir documentação que comprove a introdução legal de produtos importados no país
  • Estabelecer multas de até cinco vezes o valor da mercadoria envolvida

O debate sobre como combater o contrabando na era digital apenas começa, e encontrar o equilíbrio entre controle estatal, responsabilidade das plataformas e proteção ao consumidor será fundamental para o futuro do comércio na Argentina.

Contexto para leitores brasileiros

CUIT: É o equivalente argentino ao CNPJ/CPF brasileiro, um código único de identificação tributária utilizado para todos os trâmites fiscais.

IVA: Imposto sobre Valor Agregado, similar ao ICMS brasileiro, incide sobre a venda de bens e serviços.

ARCA: A Agência de Recursos da Contribuição e Aduaneira é o equivalente à Receita Federal brasileira, responsável pela arrecadação tributária e controle aduaneiro.

Enacom: O Ente Nacional de Comunicações é o órgão regulador de telecomunicações da Argentina, equivalente à Anatel no Brasil.

Rematel: Registro de Importação de Mercadorias para Teleinformática, necessário para legalizar equipamentos de tecnologia importados.

Fonte: Infobae - 14 de junho de 2026

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