25/06/2026 20:22 - Internacionales
Em um auditório de Nairóbi, capital do Quênia, os espectadores contêm a respiração quando um marido desfecha uma série de golpes e tapas em sua esposa, empurrando-a ao chão. "Gostaria de poder evitar isso para vocês", diz a esposa ao público. "Meu marido me bateu como se estivéssemos em uma briga de bar. Exceto que em um bar, alguém contra-ataca".
A cena pertence a "Free Me" ("Liberte-me", em tradução livre), uma obra autobiográfica escrita por Gathoni Kimuyu, uma produtora queniana de teatro e televisão de 41 anos que atravessou um casamento abusivo. A produção, apresentada originalmente em novembro de 2025 e relançada em junho de 2026 no auditório Chandaria Jain Social Group de Nairóbi, reflete a crescente indignação pública contra a violência de gênero no Quênia.
O Quênia é um país do leste africano, conhecido por suas savanas e pela Grande Migração de gnus no Parque Nacional Maasai Mara. Nairóbi, sua capital, é uma metrópole dinâmica que combina arranha-céus modernos com áreas naturais.
Gathoni Kimuyu, conhecida popularmente como "Queen Gathoni", trabalhou em produções marcantes da televisão e do teatro queniano, incluindo o drama infantil Machachari e a série de peças históricas Too Early for Birds.
A peça abrange diferentes etapas de sua vida, interpretadas por cinco atrizes distintas: a adolescente de 16 anos cheia de vida; a jovem de 21 anos que se casa e começa a sofrer abuso; a mulher de 25 anos que tem sua filha e deixa o casamento; e a de 30 anos que se reconstrói.
No Quênia, as taxas de feminicídio e abuso, já elevadas, aumentaram nos últimos anos. Feminicídio é o assassinato de mulheres por motivo de gênero, um termo que reconhece que esses crimes não são simplesmente homicídios comuns.
Em junho de 2026, centenas de mulheres marcharam pelas ruas de Nairóbi para protestar contra a violência contra as mulheres e exigir que o governo declare a violência de gênero como uma crise nacional.
| Fato | Detalhe |
|---|---|
| Campanhas online | #StopKillingUs, #EndFemicideKe, #TotalShutDownKe |
| Resposta governamental | Grupo de trabalho técnico formado em janeiro de 2025 |
| Recomendações principais | Definir feminicídio como crime distinto do assassinato |
| Situação atual | O governo ainda não implementou as recomendações |
Após uma série de marchas em 2024 e campanhas online, o governo publicou um relatório que cita fatores sociais e culturais como as estruturas patriarcais e a desigualdade de gênero por trás da violência.
Mugambi Nthiga, diretor e co-roteirista da peça, afirmou: "Esta é uma peça sobre violência de gênero sobre alguém que a viveu, mas se representa em uma realidade onde há mais de uma mulher por dia que não tem tanta sorte e não tem o mesmo tipo de final que esta peça".
Renee Gichuki, que interpreta a personagem de Kimuyu aos 16 anos, disse que a peça é oportuna porque a violência de gênero "se converteu em uma crise". "A pessoa ao seu lado a experimentou ou conhece alguém que a experimentou", acrescentou.
Kimuyu espera que a peça incentive as vítimas a falar sem vergonha: "Não há nada que ressoe mais forte para as pessoas do que uma história sobre alguém que conhecem. Ver alguém sobreviver e estar deste lado faz com que as pessoas acreditem que é possível".
Wambui Njeri, uma empresária de 24 anos, disse após ver a peça que esta humanizava as vítimas e mostrava que o perpetrador podia ser qualquer pessoa: "Isso deixa muito claro que é a mulher do dia a dia, é o homem do dia a dia".
Seu amigo Patrick Muchiri, de 40 anos, comentou: "Como homens, realmente precisamos fazer melhor... Sim, somos chefes de família e chefes de sociedades. Mas isso não significa menosprezar ou causar violência ou dano".
Fonte: The Guardian
Alfredo S. Quiroga