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Caso Adorni expõe cultura de impunidade que atravessa todo o espectro político argentino

28/06/2026 06:03 - Politica

O contraste entre discurso e prática

Em 24 de junho de 2024, o presidente argentino Javier Milei definiu com clareza sua postura contra a corrupção durante uma entrevista ao jornalista Franco Mercuriali: "Sempre que houve uma suspeita de corrupção sobre algum membro do governo, foi ejetado imediatamente", declarou com ênfase. E adicionou uma metáfora contundente: "Te pego roubando e corto sua mão".

Quase dois anos depois, em 27 de junho de 2026, Milei ofereceu uma versão muito diferente ao se referir ao caso de Manuel Adorni: "Se o considerasse culpado, o volaria, o ejetaria de um chute". Mas imediatamente amenizou: "Eu acredito em sua honestidade. A realidade é que eu o sustentei. E o que posso dizer é: 'o tema já está na justiça. Qual é o problema?'".

Contexto para quem não conhece a política argentina

Javier Milei é um economista e político argentino que assumiu a presidência em dezembro de 2023, após uma campanha marcada por propostas radicais de liberdade econômica e combate à corrupção. Seu partido, La Libertad Avanza, surgiu como uma força antissistema.

Manuel Adorni era o chefe de Gabinete, um cargo que na Argentina funciona como uma espécie de "primeiro-ministro", coordenando os diferentes ministérios e servindo como elo entre o Executivo e o Congresso. Sua renúncia representa um abalo significativo para o governo.

O peronismo é o movimento político mais importante da Argentina nas últimas décadas, associado a figuras como Juan Perón e, mais recentemente, aos Kirchner. O PRO é o partido de centro-direita que governou Buenos Aires e cujo líder é Mauricio Macri.

Os fatos: um escândalo de quatro meses

A renúncia de Adorni como chefe de Gabinete ocorreu após quatro meses de escândalos contínuos. Tudo começou com o aparecimento de sua esposa no túmulo do rabino de Lubavitch, o que detonou uma cascata de revelações:

  • Voos em primeira classe e aviões privados para Punta del Este (balneário exclusivo no Uruguai)
  • Propriedades não declaradas
  • Reformas milionárias incompatíveis com seu patrimônio declarado
  • Supostos testas-de-ferro (pessoas que aparecem como titulares de bens de outros)
  • USD 500.000 em criptomoedas não declaradas, reconhecidos pelo próprio funcionário
  • Incremento patrimonial de 775% (de $20 milhões a $944 milhões de pesos argentinos)

A moção de censura acumulava 120 assinaturas de 129 necessárias no Congresso argentino. A pressão tornou-se insuportável.

As fraturas internas

O caso gerou fraturas dentro de La Libertad Avanza. A mais visível foi a de Patricia Bullrich, ministra de Segurança que pressionou sistematicamente contra o funcionário.

Também se desligaram figuras como Nicolás Márquez (biógrafo do Presidente) e grupos de apoiadores nas redes sociais.

O padrão de proteção

A coluna do jornalista Ernesto Tenembaum identifica um padrão na gestão de escândalos por parte de Milei:

  • Caso $Libra: Nunca criticou os responsáveis pela fraude
  • Caso ANDIS: Protegeu Diego Spagnuolo apesar dos áudios comprometedores
  • Caso Espert: Defendeu José Luis Espert apesar de sua vinculação com Fred Machado

O caso Insaurralde: o silêncio transversal

A coluna señala que o problema não se limita ao oficialismo. Paralelamente ao caso Adorni, apareceram imagens de maços com milhões de dólares no vestiário de uma mansão onde vivia Martín Insaurralde, figura chave do peronismo bonaerense.

Insaurralde, ex-prefeito de Lomas de Zamora (município da Grande Buenos Aires) e ex-chefe de gabinete da província de Buenos Aires, caiu em 2023 após a divulgação de imagens suas em um iate pelo Mediterrâneo. No entanto, apesar das evidências de enriquecimento ilícito, a Justiça não o convocou para depor.

O silêncio cúmplice: Após uma semana de conhecido o escândalo dos maços de dólares, nenhum referente do PRO, radicalismo, La Libertad Avanza ou do peronismo emitiu uma declaração pública. Nem o Presidente Milei, nem Cristina Kirchner, nem seu filho, nem o governador bonaerense disseram uma palavra.

A desculpa compartilhada: "Que resolva a Justiça"

Tanto o oficialismo como a oposição recorrem à mesma frase diante de casos de corrupção: "Que resolva a Justiça". Esta postura, segundo a análise, permite evitar responsabilidades políticas enquanto os processos judiciais se dilatam indefinidamente.

A carta de renúncia de Adorni, assinada em 27 de junho de 2026, mantém um tom de vitimização. O ex-funcionário reiterou que se sente ofendido por ser qualificado de ladrão e denunciou um tratamento desproporcional.

Um problema estrutural com esperança de mudança

A conclusão da análise de Tenembaum é contundente: o problema é transversal e muito estendido. A tolerância à corrupção não começou com Milei nem terminará com ele. O fenômeno arrasta décadas de história argentina.

No entanto, a visibilidade destes casos e a pressão cidadã representam um passo importante rumo à transparência. A sociedade argentina está cada vez mais atenta e exigente com seus representantes.

Adrián Ravier assumiu como novo porta-voz presidencial em 26 de junho de 2026, enquanto Diego Santilli soa como possível substituto de Adorni na Chefia de Gabinete. A transição começaria na segunda-feira 30 de junho de 2026.

Fonte: Coluna de Ernesto Tenembaum no Infobae, 28/06/2026

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A Coluna de Alfredo Alfredo S. Quiroga

Alfredo S. Quiroga