01/07/2026 04:58 - Internacionales
A África do Sul prendeu a respiração nesta terça-feira 30 de junho de 2026 enquanto protestos massivos anti-imigração ocorriam em todo o país. A tensão disparou após uma campanha de semanas contra os estrangeiros que já deixou pelo menos quatro pessoas mortas e obrigou dezenas de milhares a fugir por sua segurança.
Durban é a terceira maior cidade da África do Sul e um importante porto no Oceano Índico. Nesta cidade costeira, onde se esperava violência, as ruas estavam incomumente tranquilas e os comércios fechados enquanto a tensão flutuava no ar. Vários milhares de manifestantes vestidos com trajes zulus marcharam pelo centro da cidade, empunhando paus e cacetetes.
O grito de guerra do movimento se ouviu uma e outra vez: "¡Abahambe!" ("Devem ir-se!" em isiZulu, o idioma mais falado do país, com cerca de 25% de falantes nativos).
Grupos por trás dos protestos estabeleceram um "prazo" arbitrário de 30 de junho para que os imigrantes indocumentados abandonassem o país. Muitos temem que as marchas derivem em violência generalizada.
A África do Sul tem um longo histórico de violência anti-imigrante. Os distúrbios xenófobos de 2008 causaram 62 mortos e deslocaram mais de 150.000 pessoas. Outra onda de ataques em 2015 deixou pelo menos cinco mortos.
Segundo dados do censo de 2022, o país abriga aproximadamente 2,4 milhões de estrangeiros (documentados e indocumentados).
"A xenofobia e a afrofobia emergem onde a insegurança econômica, o alto desemprego, a desigualdade, a governança fraca e a má gestão migratória se intersectam", explicou Philile Ntuli da Comissão Sul-Africana de Direitos Humanos.
| Mortos: | Pelo menos 4 |
| Repatriados: | Mais de 25.000 |
| Presos (2026): | Mais de 50.000 |
| Estrangeiros na África do Sul: | 2,4 milhões |
| Prazo limite: | 30/06/2026 |
Aos 29 anos, este migrante de Malawi (pequeno país ao norte da África do Sul) teve que abandonar a África do Sul após 10 anos de vida no país. Só pôde levar duas bolsas pequenas. "Não é que eu queira estar ilegalmente no país, mas o sistema não me permite estar aqui legalmente", explicou. Sua permissão de trabalho não pôde ser renovada nos últimos dois anos.
Teve que deixar para trás seu filho de dois meses, nascido de mãe sul-africana, porque não conseguiu obter documentos de viagem a tempo.
Viveu 17 anos na África do Sul trabalhando como empregada doméstica. Foi demitida e ameaçada: "Disse que queimaria minha casa e mataria minha família". Seu filho de 17 anos, nascido na África do Sul, teve que abandonar o único lar que conheceu.
"Quando viu o acampamento, me disse: 'Na verdade, nunca nos quiseram'", relatou com dor.
Este solicitante de asilo refugiado desde 2014 se esconde em uma casa segura após ter sua loja atacada em 19 de junho. "Até a polícia nos diz abertamente que está cansada de nós, que devemos ir embora do país deles. Depois de 30 de junho será ainda pior".
O governo sul-africano tentou acalmar a ira pública intensificando sua ofensiva contra a imigração indocumentada. A polícia informa que mais de 50.000 migrantes indocumentados foram presos desde janeiro de 2026.
Na noite de segunda-feira 29 de junho de 2026, o presidente Cyril Ramaphosa (ex-líder sindicalista e negociador chave no fim do apartheid) se reuniu com alguns líderes dos protestos e advertiu contra o "vigilantismo".
Fonte: The Guardian
Vários governos africanos organizaram ônibus e aviões para repatriar seus cidadãos. Em Pietermaritzburg (cidade a 80 km de Durban), centenas de famílias acamparam durante dias em frente a um edifício abandonado esperando ser evacuadas.
Muitos dormem ao relento, em campos abertos e em acampamentos improvisados, esperando ser repatriados a seus países de origem.
Mukandjwa Shomri, do Fórum de Organizações de Refugiados do Sul da África, afirmou que o governo sul-africano "não está fazendo o suficiente" para responsabilizar os perpetradores da violência xenófoba.
"Quando você tenta abrir um caso com a polícia, primeiro pedem seus documentos. Estamos sendo atacados nas ruas, na comunidade e administrativamente", denunciou.
"A esperança que muitos tínhamos como refugiados quando viemos a este país -que a África do Sul respeita os direitos humanos, um país reconhecido internacionalmente como estado democrático- já não existe", concluiu.
A África do Sul é o país mais industrializado da África, mas enfrenta uma crise econômica com desemprego superior a 30% e uma das taxas de desigualdade mais altas do mundo. Muitos cidadãos culpam os imigrantes de outros países africanos (especialmente do Zimbabué, Moçambique e Malawi) pela escassez de empregos e o aumento da criminalidade, o que alimentou tensões raciais e xenófobas durante décadas. O fim do apartheid em 1994 trouxe esperança, mas as promessas econômicas não se cumpriram para a maioria negra pobre.
Alfredo S. Quiroga