13/06/2026 12:38 - Entretenimiento
Multitudinaria despedida en las calles de un barrio porteño con banderas argentinas y personas de todas las edades homenajeando a un músico de rock legendario
A morte de Carlos "Indio" Solari ocorreu há uma semana, mas este luto popular apenas começa. O que o Indio e Los Redonditos de Ricota significaram em nossas vidas ainda tem muito para dizer, compartilhar e ressignificar.
Para desgraça dos que buscam minimizar seu impacto cultural, há uma semana estamos angustiados. A morte do Indio trouxe à tona as lembranças da adolescência e juventude de pelo menos duas gerações: um presente que não difere muito do final da década de 80 e toda a década de 90, enquanto Los Redondos tocavam ao fundo.
Algo muito repetido nos testemunhos compartilhados nestes dias é que o que nos unia fortemente ao Indio e sua música é que ele nunca nos subestimou. Los Redondos falavam ao povo, às margens; talvez não no início, quando suas apresentações eram em porões e antros frequentados por estudantes e artistas boêmios, mas sim a partir de sua popularização no final dos anos 80.
A banda de Carlos Solari conectou-se com uma necessidade daqueles que estavam nas margens: que alguém falasse do que nos acontecia. Suas canções falavam de experiências e sentimentos muito concretos, reais e do cotidiano.
A forma de falar era o que realmente atraía: misturava palavras do lunfardo (gíria portenha tradicional), do bairro, até palavrões ou palavras "vulgares" com palavras belíssimas, conceitos complexos, até palavras em latim ou algumas inventadas diretamente.
| Canção | Exemplo de linguagem |
|---|---|
| Parabellum del buen psicópata | Título com referência armamentista |
| Scaramanzia | Palavra italiana |
| Ñam fi frufi fali fru | Palavras inventadas |
| Gualicho | "El Zumba se colgó del bondi a Finisterre" (bondi + finisterre latino) |
O lunfardo é uma gíria originada em Buenos Aires no século XIX, criada por imigrantes e classes populares. Similar ao "germânio" ou gírias de periferia no Brasil, contém palavras de origem italiana, espanhola e indígena. O Indio usava essa linguagem para criar conexão autêntica com seu público.
Isso foi muito importante para a geração de filhos de trabalhadores que crescemos nos anos 90 e primeira década de 2000, os "filhos do Argentinazo". Em lares assolados pelo desemprego, pobreza e miséria - onde não havia espaço para bibliotecas nem tempo para ler - Los Redondos trouxeram poesia, versos, palavras para buscar em dicionários e perguntas para fazer a algum professor legal.
O Argentinazo refere-se à crise econômica e social de 2001 na Argentina, com revoltas populares, saques e o colapso do sistema financeiro. A expressão "filhos do Argentinazo" designa a geração que cresceu nesse contexto de desindustrialização e exclusão social, similar à "geração nem-nem" brasileira.
O Indio aproximou a arte de uma geração à qual esse direito estava vedado, porque era privilégio, porque não o merecíamos. E não só a música, também o desenho, a pintura e a literatura.
Os prólogos crípticos dos discos La mosca y la sopa (onde está a famosa frase "Certos fogos não se acendem esfregando dois palitos"), Lobo suelto/Cordero atado, Luzbelito ou Último bondi foram objeto de leitura voraz e análise obsessiva. Nesses textos vislumbramos pela primeira vez Cortázar, Roberto Arlt e Borges.
Julio Cortázar (1914-1984): autor de "O Jogo da Amostra", considerado um dos mestres do realismo mágico.
Roberto Arlt (1900-1942): escritor que retratou as classes populares e a vida urbana argentina.
Jorge Luis Borges (1899-1986): um dos maiores escritores da língua espanhola, mestre do conto e do ensaio.
As capas de Rocambole (artista gráfico argentino) também contribuíram para essa apropriação da arte pelos esquecidos do sistema. Este artista costumava dizer que não se preocupava com as reproduções populares de suas obras, que preferia que estivessem por aí em milhares de camisetas, tatuagens e bandeiras do que em um museu onde apenas poucos as apreciariam.
E isso eram Los Redondos: arte que se espalhava na esquina do bairro.
De toda a obra do Indio, são as canções de amor que mais chamam a atenção. Parece uma paradoxa falar de canções de amor e Los Redondos, mas isso só pode dizer alguém que não tenha escutado Mi genio amor, La reina Momo, Semen-up, Ella debe estar tan linda, Tarea fina, Esa estrella era mi lujo, Un poco de amor francés, La hija del fletero, Caña seca, Perdiendo el tiempo, Mariposa pontiac, Ella baila con todos, Gualicho, La pequeña novia del Carioca ou Una piba con la remera de Greenpeace.
Não é o amor romântico e batido das novelas. É o amor que dá errado, onde cometemos erros, magoamos quem amamos e somos magoados. Mas que mesmo assim é belo viver e vale a pena. É o amor atravessado pela situação social, pelo cansaço de trabalhar 8, 10 ou 12 horas e não saber bem para quê.
"Um grande remédio para um grande mal, nada mais e nada menos."
Nota: Em espanhol argentino, "rotos" significa literalmente "quebrados", e é usado coloquialmente para designar pessoas pobres, marginalizadas, sem recursos. É um termo que carrega tanto estigma quanto orgulho identitário.
Um testemunho muito viralizado nestes dias é o de Agustina, uma garota que falou do Indio como "o deus dos rotos". E não podemos estar mais de acordo. Mas é importante esclarecer que estamos longe de querer romantizar a marginalidade, a miséria, a delinquência, ou até mesmo as drogas e o álcool.
O que acontece é que em meio a todo esse horror, o Indio e Los Redonditos fizeram florescer a poesia e trouxeram música. Disseram àqueles que estavam perdidos que poderiam sair, que a questão estava agora e para sempre em suas mãos.
Claro que erraram várias vezes: aí estão para sempre Walter e Olavarría para nos lembrar. E estão as brigas de cartel e - em suma - pela maldita grana pela qual se separaram. Embora vamos às suas "missas" muitos continuamos ateus e sabemos que os deuses não existem.
Mas no domingo 8 de junho de 2026 algo aconteceu em Villa Domínico: novamente a magia sucedeu. Perto de um milhão de pessoas se juntaram, tomaram as ruas e apesar das diferenças de idade, experiências e ideologias, estiveram novamente todos juntos no maior pogo do mundo.
O pogo é uma dança característica dos shows de punk e rock, onde as pessoas pulam e se empurram de forma aparentemente caótica, mas com um código não escrito de respeito e cuidado mútuo. No Brasil é similar ao "slam" ou à roda de pogo em shows punk.
Carlos "Indio" Solari faleceu em 5 de junho de 2026 aos 77 anos por um AVC hemorrágico. Seu velório em Villa Domínico (bairro industrial de Avellaneda, na província de Buenos Aires) convocou cerca de um milhão de pessoas. O deputado Esteban Paulón apresentou projeto para declarar 5 de junho como Dia Nacional do Pogo e da Cultura Ricotera. A autópsia descartou drogas e álcool. Foi cremado após autorização judicial.
Villa Domínico é um bairro operário de Avellaneda, partido (município) da província de Buenos Aires, Argentina. É uma área industrial historicamente vinculada à classe trabalhadora e aos movimentos sindicais.
Celestino Carlos Solari (Paraná, 1949 - Buenos Aires, 2026), conhecido como "El Indio", foi cantor, compositor e líder da banda Los Redonditos de Ricota (1984-2002), uma das mais importantes do rock argentino. Após a separação da banda, seguiu carreira solo com Los Fundamentalistas del Aire Acondicionado.
Sua música misturava rock, elementos de tango e letras poéticas que retratavam a vida nas periferias argentinas. Considerado por muitos como o "último grande mito do rock argentino", sua figura transcendeu a música para se tornar um fenômeno cultural.
A "cultura ricotera" é o movimento cultural espontâneo que se formou ao redor da banda, caracterizado por shows massivos ao ar livre, arte popular, e uma identidade de classe trabalhadora.
Fonte: Prensa Obrera
Alfredo S. Quiroga
Conspiraciones