14/06/2026 12:12 - Economia
Infografía que muestra dos caminos: un lado con gráficos ascendentes en verde representando logros económicos (calificación B-, riesgo país bajo, inflación en descenso), y otro lado con símbolos de crisis política (documentos confidenciales, un reloj detenido, y una balanza desequilibrada). Estilo corporativo serio con colores verdes y rojos contrastantes sobre fondo neutro.
Para os leitores brasileiros, é importante entender os atores deste drama político argentino. Javier Milei é o atual presidente da Argentina, economista libertariano que assumiu em dezembro de 2023 com propostas de ajuste fiscal radical. Luis Caputo é seu ministro da Economia, conhecido como "Toto" Caputo, que anteriormente ocupou cargos no governo de Mauricio Macri (2015-2019). Manuel Adorni é o porta-voz oficial do governo, responsável por comunicar as decisões presidenciais à imprensa.
Luis Caputo viveu o que muitos classificam como "a melhor semana de sua gestão" à frente do Ministério da Economia. A agência de classificação de risco Standard & Poor's melhorou a nota creditícia da Argentina de CCC+ para B- com perspectiva estável, somando-se à Fitch, que já havia dado o mesmo passo um mês antes.
O risso país (explicação abaixo) caiu para 437 pontos básicos, o nível mais baixo desde maio de 2018. A inflação de maio situou-se em 2,1% mensal, o registro mais baixo em oito meses. O Banco Central estendeu sua sequência para 107 dias consecutivos de compras líquidas de dólares, acumulando mais de USD 10,6 bilhões.
Risco país é um indicador que mede a probabilidade de um país não pagar suas dívidas. Quanto menor o número, menor o risco. A Argentina historicamente tem um dos maiores riscos país do mundo devido a seus frequentes defaults (calotes). O nível de 437 pontos básicos significa que os investidores ainda pedem um prêmio significativo para emprestar ao país.
A classificação de crédito funciona como uma "nota" dada por agências internacionais (S&P, Fitch, Moody's). CCC+ indica alto risco de calote, enquanto B- ainda é considerada especulativa (grau de investimento é BBB- ou superior), mas representa uma melhora significativa.
Para investidores brasileiros: é como se a Argentina tivesse passado de um "E" para um "D-" na escola. Ainda está reprovada, mas melhorou. Isso permite que certos fundos de investimento, que têm regras rígidas sobre em que podem investir, agora possam comprar títulos argentinos.
O caso Manuel Adorni deixou de ser um problema doméstico para se tornar uma ameaça à confiança internacional. O Financial Times, um dos jornais financeiros mais respeitados do mundo, publicou uma reportagem lembrando que o porta-voz não é um funcionário marginal: é a voz oficial do governo, o responsável por explicar a "pureza do ajuste" do governo Milei.
O jornal britânico conectou o episódio com outros golpes ao discurso de transparência oficial: a promoção presidencial da criptomoeda Libra (que gerou prejuízos a milhares de investidores), e a investigação por supostos esquemas de propina na ANDIS (Agencia Nacional de Discapacidad), que envolveria Karina Milei (irmã e assessora presidencial).
Caputo teria ameaçado renunciar em uma ligação telefônica com um de seus assessores mais próximos se Javier Milei não resolver o caso. Não por moralidade pública, mas porque percebe que "o cenário de confiança está pegando fogo", algo essencial para os mercados internacionais.
Patricia Bullrich é a atual ministra da Segurança da Argentina e presidente do partido PRO (Proposta Republicana), que faz parte da coalizão que apoia o governo Milei. Ela foi ministra da Segurança também no governo de Mauricio Macri (2015-2019) e é conhecida por ser uma política dura e pragmatica.
A declaração de Bullrich sobre o caso Adorni foi significativa: "Isso é mais do que um erro, isso é uma omissão ética. E nosso Governo tem a moral como política de Estado". Isso representa uma clara tentativa de se distanciar do escândalo, algo importante no cenário político argentino onde as coalizões são frágeis.
Enquanto a macroeconomia celebra, outros indicadores mostram que a economia real não termina de reagir. Segundo dados do SIPA (Sistema Integrado Previdenciário Argentino), foram perdidos mais de 10.000 postos de trabalho registrados em março. A indústria manufatureira caiu 2,8% interanual e acumula seu nono recuo nos últimos dez meses.
Alimentos e bebidas subiram 2,5% em maio, acima do IPC geral. A Cesta Básica Alimentária aumentou 2,4%, enquanto a Cesta Básica Total subiu 2%. Uma família tipo precisa de $1.498.741 pesos argentinos (aproximadamente R$ 7.500) para não ser considerada pobre.
O rendimento disponível caiu cerca de 12% durante a gestão Milei. Os gastos de manutenção do lar absorvem quase um quarto do salário médio. Os preços regulados e serviços correm acima da média de inflação.
Para entender a situação financeira argentina, compare com o Brasil: a diferença entre o que os bancos pagam por depósitos (15-19% anual) e o que cobram por empréstimos (até 240% de custo total) gera uma brecha de 50 pontos percentuais.
| Banco | Taxa nominal anual | Custo Financeiro Total anual |
|---|---|---|
| Banco Nación (com pacote) | 74% | 171,76% |
| Banco Provincia (estatais) | 79% | 114,92% |
| BBVA / Galicia (pré-aprovados) | 129% | 240,51% |
O índice de inadimplência do crédito ao setor privado atingiu 7% em março, 5 pontos mais que um ano antes. A inadimplência das famílias chegou a 11,5%.
O mercado financeiro não vê riscos sistêmicos pelo escândalo Adorni porque confia na equipe econômica e nos fundamentos macroeconômicos. Mas o caso atravessou a fronteira doméstica e chegou aos círculos de finanças internacionais. A confiança não existe no abstrato: se fabrica, se encena, se cuida. Nesse contexto, Adorni não é apenas Adorni. É o lembrete de que a confiança financeira pode ser brilhante, mas também inflamável. Caputo sabe: o mercado perdoa quase tudo, menos que o cenário caia antes do tempo.
Alfredo S. Quiroga
Conspiraciones