02/07/2026 03:49 - Sociales
Claudio "El Turco" García, ex-futebolista que conquistou títulos com a Seleção Argentina e clubes como o River Plate, é hoje um exemplo de superação: 18 anos sem consumir drogas. Agora, ele leva essa batalha pessoal para o âmbito legislativo, apresentando um projeto de lei perante a Legislatura da Cidade Autônoma de Buenos Aires para instituir o 26 de junho como o Dia da Prevenção dos Consumos Problemáticos.
Para quem não conhece, Buenos Aires é a capital da Argentina e tem status de cidade autônoma, com sua própria legislatura. O Turco García atua como legislador pelo Partido Integrar, presidido por Daniel Amoroso, e sua proposta busca transformar uma data simbólica em uma obrigação concreta para o governo local.
Claudio García é um ex-jogador de futebol argentino, conhecido pela torcida como "El Turco". Ele jogou em clubes importantes como River Plate e foi campeão argentino e internacional. Após se aposentar, enfrentou problemas com dependência química, mas há 18 anos se recuperou e hoje dedica sua vida à prevenção de adicções.
Refere-se ao uso de substâncias (álcool, tabaco, drogas ilícitas, medicamentos) de forma que causa danos à saúde, às relações sociais ou ao bem-estar geral do indivíduo. Diferencia-se do uso recreativo ou ocasional por gerar consequências negativas na vida da pessoa.
A proposta foi impulsionada desde sua banca pela legisladora Claudia Negri, especialista em saúde pública e vice-decana da Faculdade de Medicina da Universidade de Buenos Aires (UBA). Seu respaldo confere ao projeto uma fundamentação técnica e acadêmica sólida.
A UBA é a universidade mais prestigiada da Argentina e uma das mais importantes da América Latina. Ter o apoio de sua Faculdade de Medicina significa que o projeto está respaldado por evidência científica séria.
O 26 de junho não foi escolhido por acaso. Essa data é o Dia Internacional da Luta contra o Uso Indevido e o Tráfico Ilícito de Drogas, estabelecido pela Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) mediante a Resolução 42/112 de 7 de dezembro de 1987.
Em 1991, o Congresso Nacional argentino aderiu a essa comemoração através da Lei Nacional N° 23.945. No entanto, a cidade de Buenos Aires, apesar de contar com legislação própria em matéria de adicções, não tinha até agora nenhum instrumento que gerasse compromissos de ação anuais.
O texto estabelece que o Poder Executivo da Cidade deverá realizar anualmente, em torno do dia 26 de junho, campanhas públicas de conscientização e prevenção de consumos problemáticos, baseadas em evidência científica e orientadas para a redução de riscos e danos.
As ações deverão incluir comunicação massiva e atividades presenciais em hospitais, Centros de Saúde e Ação Comunitária (CeSAC) - que são postos de atendimento primário nos bairros - e espaços comunitários do território.
Segundo a Enquete Nacional sobre Consumos e Práticas de Cuidado elaborada pelo Instituto Nacional de Estatística e Censos (INDEC) e a Secretaria de Políticas Integrais sobre Drogas da Nação Argentina (SEDRONAR), os números são alarmantes:
| Substância | Consumo anual | Consumo mensal |
|---|---|---|
| Álcool | 66,2% da população | 51,2% |
| Tabaco | 25,6% | - |
| Maconha | 13,8% | - |
O projeto alerta ainda sobre a diminuição na idade de início do consumo, com concentração cada vez maior em populações jovens e em situação de vulnerabilidade.
Depoimento de García: "O aumento do consumo de drogas e a queda na idade dos meninos que começam a consumir é um dos problemas mais graves que temos. Me chama atenção o pouco que se fala deste tema porque estamos falando nada mais e nada menos que da saúde de nossos filhos. Eu sei porque vivi isso. Acredito que tive a sorte de perceber a tempo que estava doente e pude me recuperar, mas sou uma exceção: a droga quase sempre termina na prisão, no hospital ou no cemitério."
A Cidade de Buenos Aires já conta com um marco normativo: a Lei N° 2318 estabelece uma política integral para o abordaje dos consumos problemáticos; a Lei N° 5650 incorpora a prevenção no sistema educativo; e a Lei N° 153 consagra a promoção da saúde como princípio reitor. No entanto, nenhuma garantiu até agora a implementação de ações preventivas com a periodicidade necessária.
A experiência de outras províncias argentinas respalda a aposta pela institucionalização:
Os resultados da experiência cordobesa são concretos: cada edição gerou um aumento de entre 35% e 37,5% nos primeiros contatos para solicitar tratamento, e um incremento de 345% nas visitas aos recursos digitais de prevenção em relação à semana anterior.
O projeto se enmarca no trabalho que García vem realizando desde o ano passado junto ao Partido Integrar. Em outubro de 2025, foi candidato desse espaço a deputado nacional pela Cidade.
Um dos marcos desse percurso foi a palestra que García ofereceu em abril passado no auditório principal da Faculdade de Medicina da UBA, onde repasou sua história e convocou a repensar o abordagem social das adicções.
"Estas palestras me fazem bem, é como uma terapia. Fazer terapia com um profissional claro que também é muito importante, porque a adicção sempre é algo que está latente. Mas eu me sinto totalmente recuperado, antes de voltar a consumir me mato. Não tive recaídas em 18 anos e sou o cara mais feliz da vida", disse na ocasião.
Semanas depois, encabeçou outra atividade no Barrio 31, um bairro popular de Buenos Aires, onde percorreu espaços comunitários e se reuniu com vizinhos e jovens. "Quando deixei o futebol me encontrei só. Tinha tido uma rotina desde os 15 anos e de golpe já não estava mais. Durante meus piores anos vinha aos bairros para comprar droga... Agora venho para dar palestras de prevenção de adicções", lembrou.
Para entender o contexto: O Barrio 31 é um bairro popular (favela) localizado no coração de Buenos Aires, próximo à estação de trem Retiro. Historicamente estigmatizado, hoje passa por um processo de urbanização e integração à cidade formal.
Fonte: Infobae
Alfredo S. Quiroga