Após 34 dias de fechamento devido a nevascas, o Paso Cristo Redentor foi reaberto nesta terça-feira, 18 de agosto, para o transporte de cargas. O corte recorde deixou perdas milionárias, mais de 1.800 caminhões retidos e um forte protesto do setor privado pela falta de manutenção e previsão.

O Paso Internacional Cristo Redentor, principal corredor terrestre entre Argentina e Chile, reabriu nesta terça-feira, 18 de agosto de 2026, após permanecer 34 dias fechado devido às intensas nevascas e ao vento branco que atingiram a cordilheira dos Andes. A reabertura, que ocorre em meio a um forte descontentamento empresarial e ao drama dos caminhoneiros retidos, foi realizada com uma operação especial que prioriza o trânsito de veículos de carga.

O fechamento, que começou em 14 de julho, tornou-se o mais longo da história da passagem, superando amplamente os registros anteriores. Durante mais de um mês, entre 1.800 e 2.000 caminhões ficaram retidos na província de Mendoza, distribuídos entre a Área de Controle Integrado de Uspallata, postos de gasolina e bases de empresas, aguardando que as condições climáticas permitissem a abertura.

O drama dos caminhoneiros: "Isso vai ficar na história"

Um dos testemunhos mais comoventes é o de Luis Carvacho, um caminhoneiro chileno que falou com a Rádio Mitre Mendoza. Carvacho chegou à passagem no mesmo dia do fechamento, 14 de julho, e ficou preso na Argentina por 48 dias. "Foi uma negligência não ver as consequências que isso traria", expressou com amargura.

O motorista relatou que a situação foi extrema: "É preciso estar preparado psicologicamente, emocionalmente. Começaram a chegar caminhões, companheiros, colegas, e eles começaram a descompensar. Existe a pressão da altitude, psicologicamente começar a pensar que estávamos ali sem poder fazer nada". Carvacho, com 12 anos de experiência em rotas internacionais, garantiu que "nunca tínhamos enfrentado algo tão drástico".

No entanto, ele também destacou a solidariedade recebida: "Houve serviços muito oportunos, muita água de manhã e à tarde, um prato de comida quente. O Exército veio com a Gendarmaria e o sindicato dos caminhoneiros. Temos muito a agradecer à Brigada Cóndor, que vinha nos ver todos os dias, duas vezes ao dia, verificava nossa pressão".

Impacto econômico: perdas milionárias e protestos empresariais

O fechamento da passagem teve um forte impacto na economia regional. Segundo cálculos da Associação de Proprietários de Caminhões de Mendoza (Aprocam), cada caminhão parado gerou perdas de USD 450 a USD 600 por dia, dependendo se a unidade possuía equipamento de refrigeração. Com mais de 1.800 unidades retidas durante 34 dias, as perdas do setor são estimadas em dezenas de milhões de dólares.

O engenheiro agrônomo Bruno Pescarmona foi contundente em sua reclamação: "1 MÊS!! Quanta negligência!". Segundo ele explicou, "70% das exportações de Mendoza saem por via terrestre para o Chile através do Paso Internacional Cristo Redentor. Tomando como base os USD 1.538 milhões exportados no último ano, isso representa cerca de USD 1.070 milhões". Além disso, ele destacou que "ter um mês ininterrupto de fechamento paralisa ou coloca em risco direto exportações de USD 95 a USD 100 milhões em produtos de Mendoza".

Por sua vez, Martín Clement, ex-presidente do Conselho Empresarial de Mendoza (CEM), criticou a gestão da passagem: "Enquanto em outros países são inauguradas obras de infraestrutura faraônicas, aqui estamos há mais de um mês com a principal passagem de fronteira fechada por tempestade de neve. Inacreditável. Fizemos algo muito errado nas últimas décadas". Clement propôs que "a gestão, de ambos os lados, deve ser privada".

Como a passagem foi reaberta: cronograma e medidas

Segundo a Vialidad Nacional, a passagem foi habilitada para o transporte de cargas da Argentina para o Chile durante terça-feira, 18, quarta-feira, 19, e quinta-feira, 20 de agosto, das 9h às 21h, até o setor de Guardia Vieja. Terão prioridade os caminhões que já estiverem documentados no estacionamento de Uspallata.

Na sexta-feira, 21, e sábado, 22 de agosto, o fluxo será invertido: apenas caminhões circularão no sentido Chile-Argentina, com o mesmo horário e até Uspallata. O turismo interno de Uspallata fica suspenso durante esse período. As condições para veículos menores, ônibus e turistas serão comunicadas oportunamente.

Além disso, a Gendarmaria Nacional organizará a passagem dos caminhões por meio de "encapsulados" (grupos de veículos que transitam juntos) e controlará a circulação para evitar que o movimento internacional cause problemas no acesso aos setores turísticos.

Turismo interno retorna à Alta Montanha

Na sexta-feira, 21 de agosto, o turismo interno também retornará à zona da Alta Montanha, com a reabertura dos parques de neve Penitentes e Los Puquios. A medida permitirá novamente o acesso de visitantes, mas sob um esquema especial de circulação e estacionamento.

Uma das principais medidas será respeitar as zonas habilitadas para estacionamento. Não será permitido parar ou deixar veículos na estrada, portanto os visitantes deverão utilizar os estacionamentos disponíveis. Quando os estacionamentos estiverem cheios, o trânsito interno de Uspallata será temporariamente suspenso para evitar maior concentração de veículos.

A reabertura turística ocorre após várias semanas de restrições que geraram forte descontentamento entre comerciantes e prestadores de serviços turísticos da região pela perda de atividade durante grande parte do inverno.

Uma passagem crucial para o comércio bilateral

O Sistema Integrado Cristo Redentor, localizado a mais de 3.000 metros acima do nível do mar, conecta a província de Mendoza com a Região de Valparaíso, no Chile. Por este corredor circula cerca de 70% do comércio exterior entre os dois países.

Segundo dados oficiais da Unidade de Passagens de Fronteira do Chile, durante 2025 transitaram por este complexo 427.214 caminhões, movimentando mais de 6,5 milhões de toneladas de carga. O intercâmbio comercial entre Argentina e Chile superou os USD 7.000 milhões em 2025, com saldo positivo para a Argentina de mais de USD 5.000 milhões.

O acesso à passagem é feito pela Rota Nacional 7 em território argentino e pela Rota 60 no Chile, fazendo parte do Corredor Bioceânico Central, uma infraestrutura crucial para o intercâmbio entre o Atlântico e o Pacífico.

Fontes: Infobae | La Nación | Los Andes | Radio Mitre