A fúria da natureza no deserto do Atacama
Um intenso sistema de chuvas desencadeou uma emergência de grande magnitude no norte do Chile, com epicentro na comuna de Tocopilla, região de Antofagasta. As precipitações, que em poucas horas atingiram 30 milímetros — quando a média anual da região é de apenas 5 milímetros —, ativaram ravinas e provocaram aluviões (deslizamentos de lama e pedras), deslizamentos de terra e desabamentos que arrasaram casas, estradas e veículos.
O saldo oficial, segundo o Serviço Nacional de Prevenção e Resposta a Desastres (Senapred), é de 1 pessoa morta, 3 feridos, 580 desabrigados e 1.166 evacuados que foram alojados em abrigos. Além disso, há 22 pessoas isoladas e centenas de moradias com danos diversos.
Tocopilla, a cidade mais atingida
Tocopilla, uma localidade de cerca de 30.000 habitantes localizada a 1.530 quilômetros ao norte de Santiago, ficou completamente isolada desde terça-feira. A prefeita Ljubica Kurtovic descreveu a situação como 'uma tragédia' e explicou que a geografia local agrava o impacto: “Tocopilla é um cordão de ravinas”, afirmou. O aluvião de lama atravessou setores urbanos, arrastou carros e caminhonetes, inundou 60% das casas e causou danos estruturais no hospital local.
A emergência obrigou o traslado de 540 pessoas privadas de liberdade do Centro Penitenciário de Tocopilla para estabelecimentos em Antofagasta. Também foram suspensas as aulas nas regiões de Arica e Parinacota, Tarapacá e Antofagasta, e 5 unidades de saúde ficaram fora de serviço, com pacientes transferidos para outros centros.
Dados-chave da emergência
- 1 morto
- 3 feridos
- 1.166 evacuados
- 580 desabrigados
- 22 isolados
- 60% das casas afetadas em Tocopilla
- 540 presos transferidos
- 4.000+ clientes sem eletricidade
Estado de exceção e envio de recursos
O presidente chileno, José Antonio Kast, viajou na manhã desta quarta-feira para a área afetada e decretou o estado de exceção constitucional de catástrofe para a província de Tocopilla. “Devido aos graves impactos da tempestade, decidi disponibilizar todos os recursos humanos e materiais para enfrentar esta emergência”, informou em sua conta no X.
O subsecretário do Interior, Máximo Pavez, vinculou o fenômeno às condições anormais do Niño intenso e reconheceu que “os níveis de chuva tornam impossível que não haja impactos”. As autoridades mantêm o alerta vermelho na região de Antofagasta, na província de Iquique e na comuna de Huara.
Resgates e danos em todo o norte
Na madrugada, equipes de Carabineros com apoio da Marinha conseguiram resgatar com vida duas pessoas presas em Iquique, incluindo um homem de cerca de 80 anos. “Foi um resgate complexo, havia muita terra removida”, explicou o general Adrián Andrades.
No Norte Grande, o trânsito está suspenso em trechos das rotas 15-CH, 1 e 504, e as passagens de fronteira para Jama e Sico permanecem fechadas. No Norte Chico, foram registrados deslizamentos em Caldera, e as comunas de Tierra Amarilla e Diego de Almagro ficaram isoladas.
O fenômeno pode cruzar para a Argentina
O doutor em Ciências Atmosféricas Jorge Carrasco, da Universidade de Magalhães, explicou que as chuvas foram causadas por uma “baixa segregada”: uma circulação de baixa pressão nos níveis médios da troposfera que age como “um pião de ar frio que desce e interage com ar quente e úmido”.
O especialista antecipou que as condições melhorariam nesta quarta-feira no Chile, mas que o sistema se deslocaria para a Argentina e poderia se reativar sobre a Bolívia, o Paraguai e o norte argentino. Para quinta-feira, sua influência alcançaria o sul do Brasil e o Uruguai.
A passagem de fronteira Chungará, que liga o Chile à Bolívia, foi fechada preventivamente por acúmulo de neve, deixando cerca de 300 passageiros retidos em dez ônibus internacionais.
Contexto: o Chile diante das mudanças climáticas
O Chile é considerado um dos países mais vulneráveis às mudanças climáticas por sua geografia, diversidade de ecossistemas e exposição a terremotos, secas, atividade vulcânica, inundações e derretimento de geleiras. A emergência ocorre enquanto as autoridades reforçam os sistemas de monitoramento diante da chegada prevista de um “Super Niño”, cujo maior impacto é esperado entre outubro e dezembro, podendo se estender até março de 2027.
Fontes: La Nación, Infobae, Cadena 3, Mendoza Post e Río Negro.