O medicamento Foundayo (orforglipron), da Eli Lilly, já está disponível nas farmácias britânicas sob prescrição privada. É o primeiro país europeu a aprová-lo, mas especialistas alertam que as versões em comprimidos são mais fáceis de falsificar do que as injeções, abrindo espaço para um mercado ilegal.

Um novo aliado contra obesidade e diabetes

Desde esta segunda-feira, 24 de agosto de 2026, o Reino Unido tornou-se o primeiro país da Europa a oferecer em suas farmácias a pílula diária Foundayo (nome comercial do orforglipron), desenvolvida pela farmacêutica americana Eli Lilly. O medicamento oral trata a diabetes tipo 2 e favorece a perda de peso, tendo sido autorizado pela agência reguladora britânica (MHRA) no início de agosto.

O fármaco é indicado para pessoas com índice de massa corporal (IMC) de 30 ou mais, ou entre 27 e 30 com pelo menos uma comorbidade relacionada ao peso. Também pode ser usado para melhorar os níveis de açúcar no sangue em pacientes com diabetes tipo 2 mal controlada. A administração é uma vez ao dia, em qualquer horário, sem restrições de comida ou água.

Khalil Asmar, vice-presidente de saúde cardiometabólica da Lilly no norte da Europa, comemorou a disponibilidade: “Estamos contentes que haja outra opção de tratamento oral para pacientes elegíveis no Reino Unido, junto aos tratamentos injetáveis autorizados”.

Acesso inicial apenas com receita privada

Numa primeira fase, o Foundayo será dispensado somente com receita privada. A Eli Lilly informou que está trabalhando com o National Institute for Health and Care Excellence (NICE) – órgão que avalia a relação custo-benefício de medicamentos no sistema público de saúde inglês – para avaliar sua possível incorporação ao NHS (o sistema público de saúde do Reino Unido).

Henry Gregg, diretor executivo da Associação Nacional de Farmácias, destacou a importância desta segunda pílula de perda de peso disponível no país (a primeira foi a versão em comprimido do Wegovy, aprovada em junho). “É especialmente relevante para pacientes que não podem ou não querem usar injeções, e pode ampliar o acesso a mais pessoas”, afirmou.

A sombra das falsificações

Mas o lançamento vem acompanhado de um alerta contundente: especialistas temem que as versões em comprimido sejam um alvo fácil para falsificadores, muito mais do que as injeções.

O professor Bhavik Patel, da Universidade de Brighton, explicou que “as pílulas são presas muito mais fáceis para golpistas do que os injetáveis, porque exigem equipamentos relativamente acessíveis para fabricá-las – algo para misturar os pós e uma prensa de comprimidos – e permitem produção em massa”.

O doutor Bernard Naughton, pesquisador em regulação farmacêutica do Trinity College de Dublin, destacou que comprimidos falsificados podem conter medicamentos retirados da cadeia de fornecimento legítima, armazenados incorretamente, contaminados, com doses erradas ou até mesmo sem princípio ativo. “Já vimos exemplos de injeções falsificadas. É relativamente fácil criar um comprimido e, com uma boa embalagem, fazê-lo passar por produto legítimo”, alertou.

Naughton também mencionou que sua pesquisa sobre o comportamento dos pacientes sugere que as pessoas são mais propensas a arriscar com comprimidos do que com injeções ao comprar online, mesmo quando suspeitam que algo está errado.

Antecedentes de apreensões

O problema não é hipotético. Em outubro de 2025, a MHRA realizou uma operação em uma fábrica em Northampton e apreendeu mais de 250 mil libras esterlinas em injeções falsificadas para perda de peso, incluindo canetas do fármaco experimental retatrutide, não autorizado no Reino Unido. Até agora, não foram anunciadas prisões ou processos, e uma investigação do The Guardian revelou que a empresa cujo nome aparecia na embalagem, Alluvi, continua anunciando suas canetas de retatrutide no Telegram.

A Eli Lilly, por sua vez, está processando vários fornecedores que acusa de participar de um mercado oculto ilegal de seus medicamentos. A empresa afirmou que toma medidas contra falsificações, incluindo monitoramento online e colaboração com as autoridades.

Recomendações para pacientes

A professora Oksana Pyzik, da UCL School of Pharmacy e presidente acadêmica da aliança Fight the Fakes, instou os pacientes a adquirir esses produtos apenas com receita médica e sob supervisão médica, evitando qualquer compra em redes sociais. “Os pacientes devem saber que só devem acessar esses produtos com receita, sob supervisão médica e evitar comprar qualquer produto farmacêutico em redes sociais”, enfatizou.

Pyzik também alertou sobre o aumento de operações domésticas de falsificação cada vez mais sofisticadas, e destacou que “quando uma fábrica ilegal pode ser invadida, fechada e reaparecer online pouco depois sem prisões ou processos, isso não é um impedimento que funcione e expõe lacunas regulatórias reais”.

O subdiretor de conformidade da MHRA, Andy Morling, garantiu que a agência trabalha “incansavelmente” para identificar e tomar medidas contra o fornecimento ilegal de medicamentos não autorizados e falsificados, e que os medicamentos autorizados estão sujeitos a rigorosos processos regulatórios.

Um passo esperançoso, com cautela

A chegada do Foundayo representa um avanço significativo no acesso a tratamentos para obesidade e diabetes, especialmente para quem rejeita injeções. No entanto, a comunidade médica e regulatória insiste na necessidade de reforçar a regulação e a educação pública para evitar que o entusiasmo por esses fármacos se torne um terreno fértil para fraudes.

Enquanto isso, os pacientes britânicos já podem consultar seus médicos sobre essa nova opção, que promete ser mais econômica e acessível que os injetáveis, mas exige a mesma vigilância.

Fontes: The Guardian – Lançamento do Foundayo e The Guardian – Alerta sobre falsificações.