Enquanto o governo mantém o dólar atacadista abaixo de AR$ 1.500, a consultoria americana Pantheon Macroeconomics, reconhecida por seus acertos, projeta que a taxa de câmbio chegará a AR$ 1.850 em dezembro. A previsão supera amplamente o consenso do mercado e reabre o debate sobre o atraso cambial e a competitividade.

A projeção que agita o mercado

A consultoria Pantheon Macroeconomics, fundada pelo economista Ian Shepherdson — reconhecido pelo The Wall Street Journal como o prognosticador econômico 'mais preciso do mundo' —, antecipou que o dólar atacadista chegará a AR$ 1.850 no fim de dezembro de 2026 na Argentina. Esse número implica uma desvalorização de aproximadamente 27% para o ano, muito acima do que espera o consenso de bancos e consultorias.

A estimativa da Pantheon Macroeconomics se destaca entre as 47 firmas internacionais e locais pesquisadas pela FocusEconomics em agosto, sendo a mais alta para a taxa de câmbio local. Em seguida, aparecem as projeções de consultorias argentinas como Invecq Consulting (AR$ 1.800), LCG (AR$ 1.770) e Econviews (AR$ 1.750).

O consenso geral dos especialistas ouvidos pela FocusEconomics coloca o dólar atacadista em AR$ 1.648 para dezembro, enquanto o mercado futuro do Matba-Rofex opera a AR$ 1.623.

Quem é Ian Shepherdson?

Shepherdson é considerado um 'guru' nos Estados Unidos por ter acertado vários cenários financeiros importantes. Entre seus acertos mais notáveis estão:

  • 2008: previu o colapso do mercado imobiliário.
  • 2020: antecipou que o Federal Reserve começaria a subir as taxas em 2022, contrariando a maioria dos analistas.
  • 2022: alertou que o aumento das taxas hipotecárias causaria uma queda significativa na demanda por moradias.

Ele foi economista-chefe para os EUA no HSBC Securities em Nova York. Hoje, a Pantheon Macroeconomics fornece informações econômicas globais para mais de 500 fundos de investimento, bancos e instituições internacionais.

O teto da banda cambial

A previsão da Pantheon Macroeconomics se aproxima do teto da banda de flutuação cambial definido pelo Banco Central em AR$ 1.856, um nível que é atualizado diariamente com base na inflação de dois meses anteriores (t-2) e que é o máximo permitido para não intervir no mercado.

Em contraste, a MAPFRE Economics, uma das consultorias que mais acertou nos últimos dois anos, reduziu suas expectativas para dezembro para AR$ 1.658, quando no mês passado projetava um valor próximo a AR$ 1.843.

O debate sobre o atraso cambial

A diferença entre a inflação projetada e a evolução do dólar é o eixo do debate. Enquanto o REM do Banco Central estima uma inflação de 29,8% para 2026 e a LatinFocus projeta 29,3%, o dólar atacadista fecharia o ano em torno de AR$ 1.650 segundo o consenso, o que implica uma alta de apenas 10,8% desde o fechamento de sexta-feira (AR$ 1.487,50).

Quem alerta para um atraso cambial argumenta que, quando a inflação avança acima do dólar, os custos de produzir na Argentina ficam mais caros em moeda forte, afetando exportadores e empresas que competem com importados. O governo, por outro lado, rejeita uma desvalorização brusca por seu impacto nos preços e no poder de compra.

Reservas e estratégia oficial

Para manter a calma cambial, o governo combina intervenções em futuros com a colocação de títulos atrelados ao dólar e títulos duais. Segundo Ignacio Morales, chefe de Investimentos da Wise Capital, o estoque desses títulos em mãos de privados saltou de US$ 3.211 milhões em maio para US$ 11.239 milhões em julho, um aumento de quase US$ 5.000 milhões em um mês.

Em 14 de agosto de 2026, o BCRA acumula compras de US$ 14.000 milhões no ano e mantém reservas brutas próximas a US$ 49.567 milhões, 2,4 vezes mais que os mínimos do final de 2023. As reservas líquidas alcançam aproximadamente US$ 11.900 milhões, um nível não visto desde o início de 2020, segundo a Fundação Mediterrânea.

O mercado não espera um salto cambial significativo para o restante de 2026, mas o número de AR$ 1.850 projetado pela Pantheon Macroeconomics funciona como um alerta sobre os riscos de manter uma taxa de câmbio defasada em relação à inflação.

Fonte: imago.com.ar