Em uma operação para aliviar a pressão cambial, o Tesouro argentino trocou apenas 34,12% dos títulos que vencem em agosto. Com aceitação abaixo do necessário, o mercado segue atento ao fixing do dia 26 e o risco-país já supera os 500 pontos, enquanto o BCRA reduz suas compras de reservas.

Uma operação para esticar prazos em meio à turbulência

O governo argentino, por meio da Secretaria de Finanças liderada por Luis Caputo, realizou nesta terça-feira, 18 de agosto de 2026, uma troca de dívida para reduzir os vencimentos de curto prazo das Letras do Tesouro atreladas ao dólar (conhecidas como dólar linked). A manobra consistiu em substituir o título LELINK D31G6, com vencimento em 31 de agosto, por duas novas letras: a D30S6 (vence em 30 de setembro) e a D30O6 (vence em 30 de outubro).

Segundo o Ministério da Economia, a operação foi realizada com base no Decreto 846/24, um mecanismo que permite a troca de títulos sem a emissão de nova dívida em pesos, algo essencial em um cenário de escassez de liquidez.

Adesão de 34,12%: o menor índice entre seis canjes em 2026

O resultado final mostrou uma aceitação de 34,12% do valor nominal em circulação da LELINK D31G6. Foram recebidas 255 ofertas, com o resgate de US$ 1,344 bilhão do título original e a emissão de US$ 1,354 bilhão nas novas letras, frente a ofertas que somaram US$ 1,737 bilhão.

A demanda concentrou-se fortemente no papel mais curto: US$ 1,213 bilhão foi destinado à D30S6 (setembro), com preço de corte de US$ 989,90 por US$ 1.000, enquanto apenas US$ 141 milhões foram para a D30O6 (outubro), a US$ 986. Ou seja, quase nove em cada dez dólares trocados foram para setembro.

O economista Federico García Martínez destacou que essa foi a menor adesão entre as seis operações do tipo realizadas em 2026, deixando a maior parte dos compromissos ainda concentrada em agosto.

Por que essa troca é crucial: a disputa pelo câmbio

A LELINK de agosto representa cerca de ARS$ 6,6 trilhões (aproximadamente 40%) dos vencimentos que o Tesouro enfrenta na próxima semana. O estoque em circulação da D31G6 é de aproximadamente US$ 4,4 bilhões, dos quais cerca de US$ 1,25 bilhão está nas mãos do Banco Central, segundo a consultoria 1816.

O dia crucial será 26 de agosto, data do fixing para essa letra — o valor de referência usado para o ajuste cambial. Em julho, o fixing da LELINK D31L6 coincidiu com um dia em que o BCRA não comprou reservas, interrompendo uma sequência de 135 sessões consecutivas, e detectaram-se vendas do Tesouro de quase US$ 150 milhões no mercado de câmbio para conter o tipo de cambio.

Analistas como Martín de la Fuente, da corretora Bavsa, estimavam que era necessária uma adesão de pelo menos 50% para que o fixing fosse menos traumático. O índice de 34,12% ficou abaixo dessa marca, aumentando o receio de pressão sobre a moeda.

Superávit fiscal de julho e o cenário de taxas

Em paralelo, o Ministério da Economia informou que o Setor Público Nacional registrou em julho um superávit primário de ARS$ 2,96 trilhões e um superávit financeiro de ARS$ 244,9 bilhões, em um mês que incluiu pagamentos a credores de cerca de US$ 4,2 bilhões. No acumulado de janeiro a julho, o superávit primário é de aproximadamente 0,9% do PIB, contra a meta de 1,4% acordada com o Fundo Monetário Internacional (FMI).

O contexto de taxas segue tenso: a caución (operação compromissada) média ficou em 24% TNA e o repo interbancário alcançou 25% TNA, com níveis historicamente baixos de liquidez (estoque de repos de um dia em torno de ARS$ 0,97 trilhão).

BCRA compra apenas US$ 10 milhões e risco-país supera 500 pontos

Nesta terça-feira, o Banco Central comprou apenas US$ 10 milhões no mercado oficial de câmbio, a segunda menor aquisição do ano, em uma sessão com US$ 344 milhões negociados. O saldo comprador de agosto é de US$ 339 milhões, e o acumulado de 2026 chega a US$ 13,666 bilhões, mas o ritmo mensal desacelerou fortemente: média diária de US$ 31 milhões em agosto, contra US$ 103 milhões em julho.

O dólar atacadista fechou em ARS$ 1.495, abaixo da fronteira de ARS$ 1.500, enquanto o risco-país subiu para 506 pontos-base, o maior nível desde o fim de maio. Os títulos soberanos caíram até 2% e o índice S&P Merval recuou 1,3%.

A operação de troca, portanto, conseguiu adiar parcialmente os vencimentos, mas não eliminou a concentração de agosto. O mercado segue de olho no fixing de 26 de agosto e nas próximas medidas do governo para conter a pressão cambial.

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