Uma mudança de paradigma na oncologia urológica
O câncer de próstata é um dos tumores mais frequentes em homens, mas seu tratamento tradicional muitas vezes impactava fortemente a qualidade de vida. Uma nova evidência clínica promete mudar esse cenário de forma definitiva.
A terapia focal é uma abordagem minimamente invasiva que destrói apenas o tecido tumoral, preservando a glândula prostática e evitando sequelas graves como a incontinência urinária ou a disfunção sexual, efeitos colaterais comuns na cirurgia radical ou na radioterapia.
Resultados contundentes após uma década de acompanhamento
A pesquisa, liderada pelo Imperial College London e publicada na revista European Urology, analisou a evolução de 3.477 pacientes tratados entre 2004 e 2024 no Reino Unido e nos Países Baixos. Os resultados são encorajadores: a mortalidade específica por câncer de próstata em dez anos foi de apenas 0,13% (apenas 2 pacientes faleceram devido à doença), e apenas 3% apresentaram recaída com metástases.
Alta taxa de sobrevivência
88% dos pacientes ainda estavam vivos após dez anos, com taxas de controle do câncer comparáveis às intervenções radicais.
Menos efeitos adversos
O risco de incontinência, disfunção erétil e problemas retais é reduzido em até cinco vezes em comparação com as alternativas tradicionais.
Como funciona a terapia focal?
Este tratamento é destinado a pacientes com tumores localizados em apenas um lado da próstata (unilaterais), de risco intermediário ou alto e sem metástases. Estima-se que este grupo represente entre 30% e 40% dos diagnósticos. As principais tecnologias utilizadas são:
- HIFU (Ultrassom Focalizado de Alta Intensidade): Utiliza calor extremo para destruir as células cancerígenas. É geralmente aplicado em tumores localizados na parte posterior da próstata.
- Crioterapia: Emprega frio extremo (congelamento) para eliminar o tecido tumoral, ideal para tumores na parte frontal ou próstatas maiores.
- TMA (Tecnologia de Micro-ondas): Uma variante com controle por ultrassom em tempo real, que tem sido implementada com sucesso na Argentina.
A aplicação na Argentina e o cenário local
Na Argentina, um país sul-americano onde são diagnosticados entre 11.000 e 12.800 novos casos por ano, essa terapia é utilizada há mais de uma década em centros especializados. Durante o congresso internacional UROVIVO 2025, organizado pelo prestigiado Hospital de Clínicas José de San Martín (vinculado à Universidade de Buenos Aires), a técnica TMA foi apresentada, mostrando como o país se equipara aos principais hospitais europeus.
O urologista Marcelo Borghi, pioneiro no uso dessa técnica no país, afirmou que a terapia focal passou de ser uma proposta inovadora a se tornar uma opção concreta. Por sua vez, o diretor médico do Centro de Urologia (CDU), Ezequiel Becher, comparou esse avanço com a evolução do câncer de mama, onde se passou de cirurgias agressivas para procedimentos que conservam o tecido saudável. Com a próstata, estamos 40 anos atrás em relação à mama no tratamento do câncer, destacou Becher.
O caso de David Cameron
O ex-primeiro-ministro britânico, David Cameron, revelou em suas redes sociais em 17 de julho de 2026 que recebeu essa terapia. Ele destacou que reduz o risco de efeitos adversos que alteram a qualidade de vida e pediu urgência na ampliação do acesso para que mais homens possam se beneficiar dos tratamentos direcionados.
Desafios e futuro
Apesar do entusiasmo, os especialistas apontam que ainda existem barreiras para sua implementação em massa na América Latina, principalmente ligadas aos custos da tecnologia, acessibilidade e formação médica específica. No entanto, com a crescente aceitação da comunidade científica e a esperada queda dos custos devido à concorrência, a terapia focal projeta-se como o padrão futuro, oferecendo tratamentos personalizados, eficazes e respeitosos com a qualidade de vida.
Fonte: Imago News