Um caso que marcou a consciência global
A pequena Hind Rajab morreu em 29 de janeiro de 2024 na Faixa de Gaza após uma angustiante chamada de três horas com o Crescente Vermelho Palestino, na qual implorava para que a resgatassem. O carro da família, um Kia Picanto, havia sido atingido enquanto tentavam fugir de uma nova ofensiva israelense na cidade de Gaza. Todos os ocupantes, incluindo Hind, faleceram.
Durante meses, as Forças de Defesa de Israel (FDI) negaram ter presença na área. No entanto, investigações de veículos de imprensa e organizações independentes encontraram evidências apontando que tanques israelenses próximos foram os responsáveis pelo ataque.
A confissão do exército israelense
Nesta quarta-feira, em um comunicado oficial, o exército israelense admitiu que seus soldados dispararam contra o veículo e também contra a ambulância que foi ao resgate, na qual morreram dois paramédicos. A decisão de abrir uma investigação criminal foi tomada após revisar as evidências, segundo as autoridades militares.
"Após revisar as descobertas e devido a supostas falhas na coordenação do movimento da ambulância do Crescente Vermelho, decidiu-se iniciar uma investigação criminal do incidente pela divisão de investigação criminal da polícia militar", afirmou o texto militar.
A chamada desesperada de Hind
A menina permaneceu na linha com a operadora do Crescente Vermelho por três horas, relatando que estava cercada de corpos e pedindo ajuda. Os paramédicos que partiram para resgatá-la também foram atacados, e seus corpos só foram recuperados 12 dias depois, quando as tropas israelenses se retiraram.
O caso de Hind se tornou um símbolo do sofrimento dos civis em Gaza e provocou indignação internacional.
Outros incidentes investigados
As FDI também publicaram nesta quarta-feira revisões de outros quatro incidentes de grande repercussão. Entre eles, a morte de 15 paramédicos e pessoal humanitário em Rafah, em março de 2025, e o ataque à ambulância. O exército afirmou que abrirá uma investigação criminal para esse caso.
No entanto, decidiu não abrir investigação penal pelos ataques aéreos de abril de 2024 que atingiram um comboio da World Central Kitchen, matando sete trabalhadores humanitários, incluindo a australiana Zomi Frankcom. A organização questionou a decisão e afirmou que "não há desculpa nem justificativa para os ataques".
Reações internacionais
O Reino Unido expressou estar "horrorizado e irritado" com a morte dos três cidadãos britânicos do comboio da WCK. A Austrália também pressionou por "prestação total de contas e quaisquer acusações criminais apropriadas".
O pesquisador da organização israelense de direitos humanos Yesh Din, Dan Owen, destacou que, na última década, apenas uma pequena proporção de investigações terminou em condenações, e que a pressão política "dissuade ainda mais as autoridades encarregadas de fazer cumprir a lei israelense de responsabilizar os culpados, mesmo quando existem evidências claras".
O contexto da guerra
A guerra começou em outubro de 2023, quando o Hamas lançou um ataque surpresa contra o sul de Israel, matando 1.200 pessoas, em sua maioria civis, e sequestrando 250. As ofensivas israelenses em Gaza mataram mais de 73.000 pessoas, em sua maioria mulheres e crianças, segundo autoridades locais. Apesar de um frágil cessar-fogo desde outubro, os ataques continuam.
O ministro da Segurança Nacional israelense, Itamar Ben Gvir, declarou no fim de semana passado que deveriam ser realizados "assassinatos seletivos em Gaza, eliminando de 30 a 40 a cada noite", em declarações amplamente condenadas.
Um relatório da ONU publicado em fevereiro descreveu "um clima generalizado de impunidade" por parte de Israel nos territórios palestinos ocupados, em relação a "violações graves do direito internacional humanitário".
O exército israelense insiste que nunca tem como alvo deliberado os civis e acusa o Hamas de usar a população como escudo.