Numa movimentação diplomática rara e contundente, mais de 100 ex-diplomatas britânicos e franceses – incluindo 50 ex-embaixadores do Reino Unido e 52 da França – assinaram uma carta aberta conjunta dirigida ao presidente francês Emmanuel Macron e ao primeiro-ministro britânico Andy Burnham. O documento, divulgado no jornal britânico The Guardian e no francês Le Monde, marca uma ruptura no tom tradicional da diplomacia internacional e acusa Israel de conduzir uma política de destruição sistemática da Faixa de Gaza e dos territórios palestinos, configurando o que classificam como “limpeza étnica”.
A carta pede, ainda, ações concretas, incluindo embargo de armas e suspensão de acordos comerciais entre os países europeus e Israel. Trata-se de um dos mais fortes posicionamentos públicos de diplomatas aposentados desde a intensificação do conflito no Oriente Médio, e acontece num momento de alta tensão na região.
O que diz o documento?
O texto afirma que “nada justifica a política sistemática de destruição de Gaza e a devastação de sua população”. Os signatários referem-se diretamente às ações do governo do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e alegam que o objetivo real é “apagar qualquer esperança de um Estado palestino independente e viável”, demonstrando desprezo pelo direito internacional, pelas decisões da Corte Internacional de Justiça (CIJ) e pelas resoluções do Conselho de Segurança da ONU.
Os diplomatas também declaram que “o mundo já não enxerga Israel como uma democracia genuína”, sustentando que “não há nada de democrático em privar outros povos de seus direitos e de suas terras”. A carta detalha ainda que, na Faixa de Gaza, “quase 2 milhões de palestinos estão confinados em apenas 30% do seu território devastado, enfrentando fome extrema, falta de medicamentos e a destruição completa das moradias”.
“A demolição de casas e a violência dos colonos na Cisjordânia, muitas vezes com o apoio das forças israelenses, representam uma verdadeira limpeza étnica”.
O documento destaca ainda que mais de 1.200 palestinos foram mortos desde o acordo da chamada trégua, o que evidencia que o cessar-fogo não trouxe proteção real à população local.
As 7 medidas exigidas pelos diplomatas
A carta conjunta propõe uma lista de ações concretas para que os governos britânico e francês implementem com urgência. A ideia, segundo os signatários, é elevar o custo político e econômico da ocupação israelense e força, de facto, uma mudança de rota no conflito:
- 1. Aplicar as decisões da Corte Internacional de Justiça e do Tribunal Penal Internacional sobre a questão palestina.
- 2. Suspender o Acordo de Associação União Europeia–Israel, bem como o Acordo de Comércio e Cooperação Reino Unido–Israel, por violação de cláusulas de direitos humanos.
- 3. Proibir todas as vendas de armas e itens militares para Israel e interromper toda cooperação bilateral na área militar.
- 4. Garantir acesso humanitário completo a Gaza, sem restrições, via UNRWA e demais agências da ONU, incluindo livre trânsito de jornalistas e diplomatas.
- 5. Proibir qualquer tipo de comércio com as colônias judaicas (assentamentos), incluindo venda de produtos, investimentos, seguros e serviços financeiros.
- 6. Aplicar sanções e advertir as empresas internacionais que participarem da construção do projeto de assentamento E1, que visa cortar o território da Cisjordânia em duas partes.
- 7. Tipificar como crime a compra de propriedades por cidadãos britânicos ou franceses em áreas palestinas ocupadas e suspender o status de caridade de organizações que financiam os assentamentos.
A lista é apontada por analistas como uma das mais duras já feitas por esses diplomatas de carreira, muitos dos quais negociaram acordos em zonas de conflito no Oriente Médio durante a sua trajetória.
Contexto e reações
A carta foi divulgada na semana em que Reino Unido e França, junto de outros nove países, condenaram a licitação de 1.200 novas moradias no projeto de assentamento E1, na Cisterna. A construção desse projeto – se concluída – criaria uma continuidade territorial israelense que partiria ao meio o território cisjordano, impossibilitando na prática a existência de um Estado palestino unido. O chanceler britânico, Ed Miliband, definiu a medida como “uma ameaça e uma destrutiva” para a solução dos dois Estados e convocou a embaixadora de Israel no Reino Unido, Daniela Grudsky Ekstein, para prestar esclarecimentos.
A resposta israelita não demorou. O ministro das Relações Exteriores israelita, Gideon Sa’ar, reagiu com frase dura e direta: “O povo judeu tem o direito de viver em toda a Terra de Israel, assim como os britânicos têm o direito de viver em todo o Reino Unido”, legitimando a construção nos territórios ocupados.
Os diplomatas criticam ainda que a questão da retirada israelita de Gaza está sendo decidida sem clareza, com a delegação feita a Jared Kushner, genro do ex-presidente americano Donald Trump, e que Israel teria recusado o mais recente plano de paz de 15 pontos proposto pelos Estados Unidos – uma recusa duramente criticada por oito nações muçulmanas.
Além disso, o texto cobra que as medidas realmente sejam colocadas em prática. Tanto Reino Unido como França reconheceram o Estado palestino em 2025, mas os diplomatas sustentam que esse reconhecimento “precisa se transformar em ação urgente e visível”. A carta também defende a unidade entre o norte e a parte sul de Gaza e a Cisterna, afirmando que devem ser “reunificadas política, administrativa e economicamente”, bem como a realização de eleições palestinas que possam “reconduzir a uma renovação democrática”.
Quem são os diplomatas por trás da ação
O documento é histórico justamente pela diversidade e pela experiência de seus signatários. Contou com a adesão de diplomatas que servidos em países-chave da região, como Egito, Irã, Bahrein, Israel, Síria, Turquia, Kuwait, Arábia Saudita e Catar.
Alguns nomes de prestígio incluem Jeremy Greenstock e Emyr Jones Parry, ambos ex-representantes do Reino Unido na ONU, e Edward Chaplin, que já foi diretor para o Oriente Médio do Ministério das Relações Exteriores britânico (Foreign Office). Do lado francês, destaca-se Patrice Paoli, ex-diretor para o Oriente Médio, e Stanislas de Laboulaye, que serviu como cônsul-geral da França em Jerusalém.
A diversidade de experiência e o nível dos signatários intensificam ainda mais o peso do documento, uma vez que ele não parte apenas de ativistas, mas de respeitados profissionais de carreira que conhecem em detalhe os bastidores das negociações no Oriente Médio.
E o futuro?
A missão, que termina com um apelo direto aos líderes Macron e Burnham, tem dois objetivos claros: cobrar coerência entre o discurso e a prática dos países ocidentais na defesa do direito internacional, e tentar preservar a solução dos dois Estados – uma possibilidade que especialistas já dão quase como superada. Pelo cenário atual, com eleições antecipadas marcadas em Israel para 27 de outubro, a avaliação é que o caminho será ainda mais violento, e as vozes por sanções podem ganhar ainda mais força. Para os signatários, a ação internacional coordenada é a única ferramenta ainda capaz de evitar o pior.