Uma tragédia anunciada custou a vida de pelo menos 30 pessoas na capital da Guiné, Conakry, após um deslizamento de terra em um enorme lixão a céu aberto soterrar barracos e moradias improvisadas na madrugada de domingo, 23 de agosto de 2026.
O deslizamento ocorreu por volta das 2h00 da manhã, horário local (3h00 GMT), na comuna de Gbessia, após uma noite de chuvas torrenciais que saturaram o solo e provocaram o colapso da montanha de resíduos. As autoridades confirmaram que, além dos 30 mortos, há 6 feridos graves e 16 feridos leves.
Um aviso que chegou tarde
O mais desolador é que o governo da Guiné havia anunciado na quinta-feira anterior (20 de agosto) o fechamento do lixão por considerá-lo inseguro, especialmente durante a temporada de chuvas, que todos os anos causa deslizamentos e enchentes repentinas nas cidades superlotadas da África Ocidental. No entanto, o desastre se adiantou aos planos oficiais.
A ministra da Administração Territorial, Djénabou Touré Camara, havia declarado que os resíduos seriam realocados para fora de Conakry. O primeiro-ministro, Amadou Oury Bah, visitou o local no domingo para supervisionar as operações de resgate e pediu à população "manter a calma, mostrar solidariedade e seguir estritamente as instruções dos serviços de resgate e das autoridades competentes".
Histórias de dor
Equipes de emergência trabalham com escavadeiras e ferramentas manuais para remover os escombros. Testemunhas descreveram o deslizamento como grande o suficiente para soterrar um prédio inteiro junto com as moradias mais precárias.
Entre as vítimas, Cire Diallo, uma mulher que estava no local, contou entre lágrimas: "Perdi todos os meus filhos. Tudo o que posso fazer é confiar em Deus". Seus cinco filhos morreram no deslizamento.
Números da tragédia
- 30 mortos
- 6 feridos graves
- 16 feridos leves
- 2h00 – horário do deslizamento
- Gbessia – comuna atingida
Contexto
Guiné tem as maiores reservas de bauxita do mundo e o depósito de minério de ferro não explorado mais rico do planeta em Simandou.
Contexto de pobreza e desigualdade
A Guiné possui as maiores reservas de bauxita do mundo e o depósito de minério de ferro não explorado mais rico do planeta em Simandou, onde em novembro foi lançado um megaprojeto de mineração. No entanto, o país africano sofre com infraestrutura deficiente e pobreza generalizada: segundo relatório do Banco Mundial publicado em abril, 3,7 milhões de seus 15,1 milhões de habitantes vivem com menos de 4,20 dólares por dia.
A tragédia de Conakry expõe a fragilidade das populações mais vulneráveis, que são obrigadas a viver em condições extremas, sem acesso a moradia digna nem serviços básicos. Lixões como o de Gbessia são o lar de centenas de pessoas que sobrevivem da reciclagem informal, em um ciclo de pobreza e risco constante.
Operação de resgate
Os socorristas continuam a busca por corpos entre os escombros. A magnitude do desastre chocou o país, que agora enfrenta o desafio de dar sepultura digna às vítimas e assistência aos feridos e famílias afetadas. As autoridades ainda não informaram sobre a possibilidade de indenizações ou programas de realocação para os sobreviventes.
Esse tipo de desastre se repete a cada temporada de chuvas na África Ocidental, onde a urbanização rápida sem planejamento e a falta de políticas de gestão de resíduos transformam lixões em armadilhas mortais.
Fonte: The Guardian – 23 de agosto de 2026