Uma cúpula com peso histórico
Na quinta-feira, 3 de setembro de 2026, o Número 10 de Downing Street será palco de um encontro de alto nível: o primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, receberá o presidente da França, Emmanuel Macron. Esta é a primeira visita de um chefe de Estado estrangeiro desde que Burnham assumiu o cargo, um gesto que sublinha a importância da relação bilateral em um momento crítico para a Europa.
A reunião, antecipada pelo The Guardian, abordará quatro eixos principais: a migração irregular, as relações com a União Europeia, a situação na Ucrânia e o conflito no Irã. Mas o foco imediato estará nos anúncios sobre o controle das travessias em pequenas embarcações no Canal da Mancha.
Reforço sem precedentes na costa francesa
Segundo o governo britânico, serão mobilizados quase 1.050 oficiais franceses no norte da França para combater as travessias ilegais, um aumento de aproximadamente 25% em apenas quatro meses. Além disso, será criada uma nova equipe especializada de 75 pessoas dedicada a apreender equipamentos e prender traficantes em terra.
A unidade de inteligência conjunta também será ampliada, passando de 18 para 30 membros, e serão adicionados 45 oficiais extras na costa oeste, uma área cada vez mais usada por contrabandistas para escapar dos controles.
Nas palavras de Burnham: “A crise das pequenas embarcações é um desafio europeu compartilhado; nenhum país pode resolvê-lo sozinho”. E alertou: “Não podemos ser complacentes; as gangues de contrabandistas adaptam constantemente suas táticas”.
Relações com a UE: o “teste de Makerfield”
Um dos pontos mais delicados da agenda será a renegociação do tratado com a União Europeia. Burnham pressionará Macron para apoiar uma revisão dos acordos provisórios alcançados por Starmer, cuja cúpula com a UE foi adiada de julho para o início de novembro para dar tempo ao novo primeiro-ministro de revisar os termos.
Entre as demandas europeias estão um novo esquema de mobilidade juvenil e o acesso a mensalidades domésticas para estudantes europeus, concessões que Starmer estava disposto a aceitar. No entanto, Burnham pode adotar uma postura mais dura: ele aplicará o chamado “teste de Makerfield”, que consiste em medir cada política contra as opiniões de seus eleitores, uma comunidade no noroeste da Inglaterra com forte sentimento anti-UE.
Em contrapartida, o Reino Unido buscará novos acordos para facilitar o comércio de eletricidade e produtos agrícolas, uma área onde Macron pode ser um aliado-chave.
Ucrânia e Irã: o contexto geopolítico
A reunião também servirá para coordenar a resposta ocidental à guerra na Ucrânia e ao conflito no Irã. Em agosto de 2026, Burnham se encontrou com o presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy por ocasião do Dia da Independência da Ucrânia e anunciou a desclassificação de informações militares sensíveis para que a Ucrânia possa construir mais mísseis de cruzeiro. Esse gesto marcou uma virada na política de defesa britânica, e espera-se que Macron e Burnham discutam como aprofundar a cooperação.
Um futuro na UE?
Burnham declarou ao Guardian em 2025 que queria que o Reino Unido se reincorporasse à UE, mas ressaltou que não buscaria isso ativamente como primeiro-ministro. Essa postura pragmática reflete a complexidade do tema: enquanto alguns setores celebram a possibilidade de uma aproximação, outros temem que qualquer concessão a Bruxelas seja vista como uma traição ao Brexit.
A visita de Macron será, sem dúvida, um termômetro das intenções reais do novo governo britânico. Conseguirá Burnham equilibrar as demandas europeias com as expectativas de seus eleitores? A resposta pode definir o futuro da relação entre o Reino Unido e o continente.
Fonte: The Guardian (2 de setembro de 2026).