Um muro de vidro separa as famílias
Desde sua abertura em agosto de 2025, o centro de detenção de imigração de California City, operado pela empresa privada CoreCivic, impõe uma proibição total de visitas com contato. As aproximadamente 1.600 pessoas detidas só podem ver seus entes queridos através de um vidro e se comunicar por telefone, uma política que gerou profundo mal-estar entre as famílias e motivou uma campanha de protesto.
O edifício, que anteriormente funcionou como prisão estadual, possui uma área de visitas ao ar livre com mesas de piquenique que permanecem sem uso, conforme constatou uma auditoria do Departamento de Justiça da Califórnia realizada na primavera de 2026. Essa mesma auditoria sugere que a proibição pode violar a própria política da CoreCivic, que exige oferecer oportunidades de contato físico, exceto quando houver 'riscos de segurança' justificados.
Histórias de dor e esperança
Por trás das estatísticas, há histórias concretas. Teresa Reyes, de 63 anos, dirigiu 300 milhas (cerca de 483 km) desde San José para o aniversário de 32 anos de seu filho Guillermo, tatuador, em maio. Não pôde abraçá-lo nem entregar seu presente. 'Quero segurar meu filho, quero tocá-lo, quero garantir que tudo vai ficar bem, mas não posso', disse Reyes, que não voltou a visitá-lo desde então.
Allen Tayson, de 37 anos, pai de dois filhos e residente de Gilroy, foi detido em fevereiro durante uma entrevista de green card com o USCIS. Natural das Filipinas, chegou aos Estados Unidos quando criança e é casado com Samantha Sánchez, cidadã americana, desde 2016. Eles têm filhos de 14 e 5 anos, e Sánchez está grávida de sete meses. Em uma visita, seu filho mais novo bateu contra o vidro ao tentar abraçar o pai. 'Tudo é projetado para quebrar você, desanimar e fazer você perder a esperança. Se eu pudesse abraçar e segurar minha esposa e filhos, seria como uma fuga breve que me tiraria deste lugar. Eu valorizaria cada segundo', expressou Tayson.
Gustavo Guevara, detido desde a abertura do centro, organizou cartas de demanda nos dormitórios. Um amigo próximo foi deportado para o México em junho e nunca pôde abraçá-lo. 'Eles não apenas privam você da interação humana, mas também paira sobre sua cabeça a possibilidade de ser enviado para outro país, sem saber se você voltará a ter seus entes queridos em seus braços', relatou.
Uma campanha que cresce: 'Hugs Beyond Bars'
Diante dessa situação, os detidos lançaram a campanha 'Hugs Beyond Bars' (Abraços além das grades), em colaboração com a organização California Collaborative for Immigrant Justice (CCIJ). Eles entregaram cartas de demanda ao diretor do centro e publicaram vídeos nas redes sociais. A reverenda Deborah Lee, da Interfaith Movement for Human Integrity, denunciou também problemas de áudio nos telefones e a impossibilidade de manter conversas em grupo.
Em agosto, Samantha Sánchez se juntou à CCIJ em uma visita ao escritório do senador Alex Padilla em São Francisco para exigir uma mudança. 'Tenho esse bebê crescendo dentro de mim, e ele nem sequer tocou minha barriga', disse Sánchez, que enfrenta uma gravidez de alto risco. As videochamadas custam $0,21 por minuto (cerca de $6,30 por 30 minutos), um custo que se soma à dor da separação.
Um problema nacional
O caso de California City não é isolado. Dos 10 centros de detenção do ICE com maior população, quatro proíbem visitas com contato: California City (CA), Stewart (GA), South Texas Processing Center (Pearsall, TX) e Montgomery Processing Center (Conroe, TX). Antes de 2016, era comum que os centros do ICE oferecessem visitas com contato, segundo lembrou Michelle Brané, ex-ouvidora de detenção de imigração do DHS e atual diretora da Together and Free, que destacou que o problema persiste desde o primeiro mandato de Trump.
Enquanto isso, o ICE não respondeu aos pedidos de comentário. A CoreCivic, por meio de seu porta-voz Ryan Gustin, defendeu a política citando 'considerações de segurança' e prevenção de contrabando, e destacou que cada instalação tem autoridade para definir suas próprias políticas. O diretor do centro, Christopher Chestnut, disse à reverenda Lee que instalações com visitas de contato têm maiores taxas de overdose, embora não tenha fornecido detalhes.
A luta das famílias continua, com a esperança de que a pressão pública e a auditoria estadual consigam reverter uma política que, para muitos, atenta contra a dignidade humana.