A Justiça de Tucumán, na Argentina, rejeitou a ação dos filhos de Sergio Denis contra o Teatro Mercedes Sosa e o sindicato ATSA pela queda que causou a morte do cantor em 2020. A decisão aplica a figura de 'autoposição em perigo' e gerou indignação em Bárbara Hoffmann, que disse: 'Me dói ser argentina'. A família pode recorrer à Corte Suprema.

Um veredito que reabre uma ferida

A Sala I da Câmara em Contencioso Administrativo de Tucumán, integrada pelas juízas María Florencia Casas e Juan Ricardo Acosta, assinou em 19 de agosto de 2026 a sentença número 991 que rejeitou a ação indenizatória apresentada pelos filhos do cantor Sergio Denis (nome real Héctor Omar Hoffmann). A ação era contra o Ente Autárquico Teatro Mercedes Sosa, a Associação de Trabalhadores da Saúde Argentina (ATSA) e Raúl Francisco Armisén, que presidia o órgão na época do acidente.

O tribunal concluiu que não foram comprovados descumprimentos atribuíveis aos réus e sustentou que a causa 'direta e adequada' da queda foi a própria conduta do artista. Segundo a decisão, Denis caminhou de costas por uma passarela sem verificar o limite do espaço, o que se enquadra na figura jurídica da 'autoposição em perigo', prevista no artigo 1729 do Código Civil e Comercial da Nação, que funciona como excludente de responsabilidade quando a própria vítima adota voluntariamente uma conduta arriscada.

O acidente que chocou o país

Em 11 de março de 2019, Sergio Denis se apresentou no Teatro Mercedes Sosa em San Miguel de Tucumán, em um espetáculo organizado pela ATSA para comemorar o Dia da Mulher. O músico foi contratado pelo sindicato por $80.000 pesos. Cerca de 30 minutos após o início do show, ele desceu do palco por uma passarela sobre o fosso da orquestra, aproximou-se do público e, ao voltar, caminhou de costas sem tirar os olhos da plateia. No terceiro passo, avançou no vazio e caiu no fosso, de aproximadamente 3 metros de profundidade.

As lesões foram gravíssimas: traumatismo cranioencefálico grave, pneumotórax direito, fraturas de clavícula e de várias costelas, hemorragia subaracnóidea bilateral, edema cerebral e contusões múltiplas. Após permanecer 14 meses em coma, faleceu em 15 de maio de 2020, aos 71 anos.

A fúria de Bárbara Hoffmann

A filha do cantor, Bárbara Hoffmann, soube da decisão pela imprensa e não escondeu sua indignação. Em uma longa mensagem publicada nas redes sociais, escreveu: 'Hoje me dói ser argentina, dói pensar nessa justiça que para muitos é até mais inacessível do que para nós'. E completou: 'Argentina, o único país onde as vítimas acabam sendo culpabilizadas. Lamentável a nossa justiça'.

Hoffmann também esclareceu que a família não buscava indenização: 'Longe de buscar uma indenização, porque vi muitos posts e comentários que preferia nem ter visto, a ação foi iniciada pela negligência que repito, cometida pelo Teatro Mercedes Sosa e pelas pessoas que estavam na sua diretoria'. E encerrou com uma frase que resumiu sete anos de processo: 'Lutar é amar'.

O advogado da família: 'Nunca pensei que colocariam a culpa em Sergio'

Diego Colombo, advogado da família e amigo pessoal de Denis, recebeu a sentença com indignação e tristeza. 'Estou péssimo. É um dia duplamente triste pela amizade que tinha com Sergio. Isso me afeta como advogado e como homem do direito', afirmou em entrevista ao La Nación.

O advogado questionou que o tribunal tenha colocado o eixo da responsabilidade nos movimentos do músico: 'Como vão colocar a culpa nele por ter dado alguns passos para trás? Do que estamos falando? Nunca pensei que terminariam responsabilizando Sergio'. Colombo sustentou que durante a investigação foram incorporados elementos que demonstravam que a passarela não tinha os planos nem as habilitações correspondentes, e mencionou como fatores relevantes a iluminação do palco, a profundidade do fosso e os antecedentes de outras quedas no local.

As custas do processo, outro golpe para a família

A sentença também teve consequências processuais adicionais. O tribunal declarou de ofício a falta de legitimidade ativa dos três filhos para agir como herdeiros, o que implicou uma derrota em duas frentes simultâneas. As custas ficaram distribuídas contra eles: deverão arcar com 100% das geradas pela ATSA e por Armisén, 85% das do Ente Autárquico Teatro Mercedes Sosa e 90% das da Caja Popular de Ahorros da Província de Tucumán, citada como seguradora do teatro.

O que vem agora para a família?

A decisão ainda pode ser recorrida à Corte Suprema de Justiça de Tucumán. Colombo explicou que a decisão de continuar dependerá dos três filhos do artista: 'Temos que ir à Corte, mas isso depende deles. É muito difícil'. No final, o advogado deixou de lado os tecnicismos jurídicos e falou de sua relação pessoal com o cantor: 'Hoje meu amigo não pode se defender e a voz é nossa. Ele não merecia esse final. Sergio era toda luz e toda alegria'.

Por sua vez, Raúl Armisén, que ainda atua como presidente do Ente Autárquico Teatro Mercedes Sosa, se manifestou brevemente: 'A Justiça falou, concordo com o que disse; lamento que tenha acontecido no teatro'.

A família, enquanto isso, desligou o telefone. Bárbara Hoffmann publicou uma última mensagem: 'Agradeço sempre o interesse e o apoio da imprensa. Não vou falar agora, também não posso responder. Peço compreensão e desligo o telefone porque é impossível. O tempo é o melhor juiz e Deus vê tudo'. As publicações foram acompanhadas por duas músicas do artista: 'Conclusiones' e 'Un camino a Dios'.

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