Um giro inesperado na Casa Rosada
Na quarta-feira passada, Karina Milei se reuniu com representantes do PRO em um encontro que foi visto como o ponto de partida das negociações eleitorais para 2027. Segundo informações do Infobae, a irmã do presidente havia mantido 48 horas antes uma conversa telefônica de meia hora com Mauricio Macri, na qual propôs uma aproximação impensada meses atrás.
O ex-presidente, que vinha incentivando candidaturas alternativas como as de Hernán Lacunza, Jorge Brito ou Dietrich para pressionar o governo, decidiu enviar seu homem de maior confiança, Fernando de Andreis, à sede do governo para sondar uma possível coalizão. As versões sobre o resultado dessa missão foram contraditórias: enquanto alguns interlocutores do ex-presidente falaram em reunião negativa, De Andreis transmitiu em privado um panorama mais otimista.
Na quinta-feira, na Casa Rosada, ocorreu uma reunião-chave: Martín Menem, Eduardo "Lule" Menem, Diego Santilli e os enviados de Macri, Cristian Ritondo e o próprio De Andreis, começaram a delinear as condições de um eventual acordo eleitoral.
A estratégia de Santilli: raid pelas províncias
Diego Santilli tornou-se o artífice da aproximação. O "Colorado" empreendeu uma turnê relâmpago: na terça-feira, reuniu-se com Rogelio Frigerio (Entre Ríos) e Raúl Jalil (Catamarca) no MALBA; na quarta, viajou a Misiones para participar de uma cúpula do Norte Grande; e na sexta, voou a Catamarca para assinar um convênio pela Rede de Aquedutos Albigasta junto ao ministro da Economia, Luis Caputo.
Segundo fontes oficiais, Santilli se tornou colaborador próximo de Karina Milei, inclusive em questões sensíveis como a licitação do terreno de Tecnópolis. Sua candidatura para a província de Buenos Aires parece contar com o consenso de ambas as partes, embora a disputa pela chefia de Governo da Cidade de Buenos Aires continue sem solução.
A briga dos primos Macri
O acordo com o PRO tem um obstáculo doméstico: a relação entre Mauricio e Jorge Macri. O chefe de Governo portenho busca se aproximar do La Libertad Avanza para garantir a reeleição, mas seu primo não vê com bons olhos essa jogada. "Mauricio quer algo totalmente diferente para os próximos quatro anos", confidenciou um aliado do ex-presidente.
Do entorno de Karina Milei garantem que, se avançar em um pacote integral que inclua a capital, o fiador do acordo seria o próprio ex-presidente. "E como você faz para derrubar Jorge Macri, que quer se reeleger?", perguntam-se no círculo político. A resposta, por enquanto, é um mistério.
O peronismo: Kicillof contra o cerco K
Enquanto o oficialismo avança em seus acordos, o peronismo assiste a uma disputa interna feroz. Na terça-feira, Axel Kicillof se reuniu em um hotel de Retiro com Máximo Kirchner, cercado pela cúpula do kirchnerismo: os governadores de La Pampa, La Rioja, Terra do Fogo e Formosa, além dos líderes de bancada José Mayans e Germán Martínez.
A desculpa foi unificar uma posição sobre as PASO (eleições primárias), mas o pano de fundo é outro: o kirchnerismo fechou o cerco sobre Kicillof, que tenta arrancar o controle do peronismo de sua "inventora", Cristina Kirchner. A única demonstração de força do governador foi a incorporação de Santiago Cúneo, um dirigente sem peso eleitoral e com péssima imagem pública, denunciado pela DAIA por antissemitismo em 2018.
Nesse cenário assimétrico, a única saída de Kicillof seria uma disputa partidária à moda antiga ou as PASO, ferramenta que o governo quer eliminar.
A economia, o pano de fundo
A aproximação entre o governo e o PRO não é casual. Por trás está a preocupação com a economia e o humor social. Segundo a última pesquisa da Universidade de San Andrés, 57% dos consultados acreditam que o país piorou em relação a 2025, e 61% desaprovam a gestão de Milei, um índice superior ao que Macri tinha quando perdeu as PASO de 2019.
O presidente do Banco Central, Santiago Bausili, admitiu na sexta-feira diante de empresários em Mendoza que "a economia cresce mais devagar do que gostaríamos". Um relatório da Fundar confirmou o fechamento de mais de 2.300 empresas em maio, e 30.633 desde novembro de 2023. A falta de trabalho (39%) e os baixos salários (36%) são as principais preocupações dos argentinos.
O próprio Luis Caputo teria notado a mudança no humor social e já não demonstra o otimismo de meses atrás. "Cada vez são menos os que acreditam que 2027 será um passeio no parque", resumiu um funcionário.
PASO sim ou não?
A eliminação das PASO é a moeda de troca na negociação com o PRO. Macri está indeciso: o governador de Santa Fé, Maximiliano Pullaro, sugeriu apoiar sua eliminação para dividir o peronismo, mas o ex-presidente não se decide. O governo, por sua vez, quer avançar com a reforma eleitoral no Congresso, onde o peronismo já mostrou rejeição.
O projeto de eliminação das PASO entrou no Senado em 22 de abril de 2026, mas seu tratamento segue travado. A oposição amigável, formada pelo PRO e setores da UCR, está dividida entre acordistas e rupturistas.
O que vem por aí
O governo descerá nas próximas semanas à Cidade com vários ministros, entre eles Caputo, Santilli e Alejandra Monteoliva, para explorar um acordo com o PRO portenho. Em paralelo, o peronismo tentará mostrar unidade, embora as feridas internas estejam longe de cicatrizar.
Com as eleições de 2027 no horizonte, a política argentina entrou em uma fase de rearranjo que promete definir não apenas quem ocupará a Casa Rosada, mas o futuro do sistema partidário.
Fonte: Infobae